A SAGA DOS IRMÃOS LEITE – CRIMES VARIOS

A Saga dos Irmãos Leite.

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 PARTE I

     I CAPÍTULO- A REGIÃO DO VALE DO MUCURI 

  • O Vale do Mucuri
  • Geraldo Horta conta os crimes de Idelson Lima.
  • Emboscada e Morte do Deputado Nacip Raydan
  • As Mangas e as Surras

    II CAPÍTULO- O IMPÉRIO DAS MORTES

  • A Morte pelas Terras
  • A Tentativa de Homicídio contra Aldécio Leite
  • A tentativa de morte de Williamar Ferreira Seixas
  • A morte de Vander Campos
  • As barbaridades contra Emídio Gonçalves
  • Galileu, a Emboscada no Aeroporto de Capelinha
  • A Chacina do Maranhão. Família Juca Peão.
  • Os assassinatos de José Izac de Souza e Edil Geraldo de Souza
  • Os filhos do Joaquim do Ó
  • A morte do ex-soldado João Batista dos Santos e seu filho
  • A tentativa de assassinato de Acir Caldeira
  • A morte de Bino Monteiro
  • Morte no Hospital

III CAPÍTULO- A CHACINA DE MALACACHETA

  • A Prisão dos Militares no banheiro do Ginásio de Malacacheta
  • Origem dos Atritos
  • Preparação
  • A carnificina

      IV CAPÍTULO. PÓS CHACINA. AS MORTES CONTINUAM

  • O Êxodo da Família Cordeiro e os Novos Assassinatos.
  • O Desaparecimento de Maria Aparecida Machado
  • O Sequestro e Morte de Humberto Cordeiro
  • O Sequestro e Morte de Humberto Cordeiro
  • O Assassinato de Helvécio Cordeiro
  • As Fazendas das Vítimas
  • A Busca da Verdade
  • Revanche. A Emboscada e Morte de Toninho Leite
  • Vingança. A Morte de João Pego

O Vale.

A região denominada geograficamente Vale do Mucuri, está entre as cidades de Governador Valadares, Diamantina e Teófilo Otoni para melhor noção de localização. Fazem parte as cidades de Capelinha, Água Boa, Santa Maria do Suaçui, Malacacheta dentre outras que não vão trazer interesse para nossos registros ou que se emanciparam após os fatos aqui narrados. Região de predominância da agropecuária e seus derivados com agricultura de pouca relevância no contexto econômico. Terra do bom queijo mineiro. Até cerca de 1985 era uma região sem asfalto e de difícil acesso. No período das chuvas ficava totalmente isolada, causando grandes perdas de leite e queijos pela falta de escoamento da produção. Para se chegar mais facilmente a região, segue-se a BR 262 até o trevo de Itabira, passando pela terra de Carlos Drumond de Andrade, Santa Maria de Itabira, Guanhães e São João Evangelista. Peçanha está à direita, em seguida São José do Jacuri e São Pedro do Suaçui. Percorrendo mais cerca de sessenta quilômetros começamos a entrar no palco dos acontecimentos que tentaremos retratar, a partir de Santa Maria do Suaçui, Viajando mais quinze quilômetros até Água Boa e depois outros trinta aproximadamente para se chegar pela direita à Malacacheta e pela esquerda à cidade de Capelinha. Terra de cachoeiras, rios, córregos e muitas montanhas. De um povo hospitaleiro, amigo e trabalhador, mas que em razão dos crimes de pistolagem ocorridos em grande número a mando de fazendeiros e políticos inescrupulosos, ganhou a pecha de violento. Povo sofrido pelo abandono político de décadas passadas, quando o único interesse naquela região, era o voto de um grande curral eleitoral. E é nesse cenário que, buscamos registros de fatos a partir dos anos 50, viajando pela saga de crimes violentos que assolaram aquela região, culminando com o desfecho da Chacina de Malacacheta no principio da década de 90, que mudou radicalmente a vida dos cidadãos do Vale.

Geraldo Horta conta crimes na região.

Geraldo Horta é uma pessoa falante, remanescente daquela região e que migrou para a capital mineira fugindo da violência, nos procurando em meados de 2007 para contar alguns casos e causos do Mucuri. Ao nos visitar no antigo DEOESP, da Avenida Afonso Pena, descreveu, com seu jeito matuto de homem do interior das Gerais, algumas particularidades da cultura e crimes de morte em Santa Maria do Suaçui, Malacacheta e cidades do Vale do Mucuri.

Santa Maria do Suaçui, 1942.

                                              

Na campanha do ex-presidente Tancredo Neves para deputado federal por Minas, na década de 60, quando ainda ocupava o cargo de Primeiro Ministro do governo de João Goulart no regime parlamentarista. Santa Maria do Suaçuí se preparou para receber o ilustre candidato, sendo “Geraldinho” Lima e seus filhos, fervorosos cabos eleitorais de Tancredo Neves. Idelson Lima, um dos filhos organizou uma comitiva com bandeirolas para saudá-lo, treinando o pessoal para levantar e abaixar as bandeiras a seu comando. Idelson era conhecido como homem bravo na região, ao mesmo tempo perigoso, com má fama na cidade onde tinha até dado tiros na porta da delegacia. Totalmente diferente de seu pai, pessoa influente, porém respeitado pela população de Santa Maria do Suaçuí por sua integridade. Nas proximidades do aeroporto, Idelson posicionou o pessoal e começou o ritual de saudação a Tancredo Neves. Na cadência do “comandante” Idelson, sobe bandeira, desce bandeira, sobe e desce.

“Idelson era o mandão, mandava em tudo”.

Enquanto Idelson controlava o povo do alto de seu cavalo cotó e campeiro, Tancredo Neves, o deputado estadual Nacip Raydan e outros políticos da região passavam pelo local. No entanto, no sobe e desce das bandeiras, Idelson percebeu que um dos participantes não obedeceu a sua ordem de abaixar, permanecendo com a bandeira em pé. Idelson viu que era um dos dois filhos de Dorval, pistoleiro de Nacip Raydan, que gostava de encrenca.

Era aqueles cara pegado a laço pra virar pistoleiro”.

Ao ser questionado por Idelson, o rapaz falou em tom desafiador:

“Isso é um desaforo, eu não vô ficá levantando bandeira toda hora não”.

Idelson mandou que abaixasse a bandeira e diante da negativa falou:

Vai baixar não? Então toma”.

Sacou de seu revólver que estava na cintura e desferiu um tiro que atingiu mortalmente aquele indivíduo. Correria geral. No tumulto avisaram o outro filho de Dorval que Idelson tinha matado seu irmão. Idelson arrancou com seu cavalo, jogando o animal em cima das pessoas que estavam à frente, pois tinha que passar por duas porteiras e um mata-burro para fugir do local. Quando se aproximou da segunda porteira e pôs a mão para abri-la tomou dois balaços mortais de calibre 22, um na nuca e outro “debaixo do braço”, caindo pesadamente ao solo. Nos comícios e festividades políticas, Nacip Raydan proibia o uso de armas, mas tal proibição não se aplicava a Idelson, nem aos filhos de Dorval que lhes faziam a segurança. A arma que matou Idelson estava acondicionada entre a sela e o cavalo utilizado por seu assassino, o outro pistoleiro. Após tomarem conhecimento da morte de Idelson, as famílias Jardim e Lima, parentes entre si, reuniram-se em torno de 12 homens e foram até a casa de Dorval para vingarem Idelson Lima. Ao chegarem a casa, não encontraram o autor do homicídio que havia fugido. Então alegaram para Dorval deixar sua arma em casa e acompanhá-los até a cidade, onde um Sargento da PM estava aguardando para ouvi-lo sobre o crime. No caminho, os doze homens mataram Dorval, “que não tinha nada a ver com o crime do filho”, com mais de quarenta e cinco tiros pelo corpo. Os doze homens voltaram para Santa Maria do Suaçuí contando e festejando a covardia que fizeram.

Em seguida a este episódio ocorreu a morte do Deputado Nacip Raydan, político majoritário na região, cujos candidatos que apoiava para a prefeitura municipal não perdiam eleições. Os oponentes políticos de Nacip, reuniram e convenceram Alírio, dentista da cidade de Santa Maria do Suaçuí, que só com a morte do deputado ele poderia ser eleito prefeito da cidade. Alírio era casado com Maria Regis, viúva do “Chico” Lima, irmão do “Geraldinho” Lima, que aceitou a proposta. Viajou à Galiléia/MG, onde buscou seu irmão, conhecido por “Munheca” que teria intermediado ou participado diretamente do crime. O pistoleiro Ozasif Lopes permaneceu por cerca de uma semana nas proximidades da casa de Nacip Raydan, carregando um alforje onde estava a arma. Nacip chegou de Belo Horizonte em uma Rural e parou em frente à sua casa, na parte alta do centro da cidade, com o veículo carregado de remédios para doação aos pobres. O criminoso aproximou-se e desferiu os tiros que o mataram instantaneamente. O crime causou grande comoção na cidade e no meio político do estado, tendo o governador Magalhães Pinto determinado a presença do então capitão Pedro, militar de Governador Valadares, respeitado e temido por sua valentia e meios um tanto quanto ortodoxos para o combate ao crime. Ao chegar à cidade mandou prender todos os Jardim e os Lima para apurar os crimes. Na entrada de Santa Maria do Suaçuí, fazendeiros, homens velhos e políticos da região, pertencentes às duas famílias, passaram diversos constrangimentos por parte dos policiais militares que acompanhavam Capitão Pedro. Foram colocados nus por ordem do oficial.

Era tempo de ditadura e os sordados enfiava os pés nos homi nôvo e véios, depois de pô eles pelado, acertando aqueles botinões na trasêra deles”.

Alírio ao ser preso, acusou “Geraldinho” de ter fornecido a arma do crime, esperando que com o envolvimento de pessoa influente, pudesse se safar. No entanto, essa acusação gerou uma série de arbitrariedades por parte dos policiais. “Geraldinho” Lima teria sido submetido à tortura, quando colocaram um peso de cerca de cinco quilos amarrados em sua genitália para confessar participação na morte do deputado Nacip Raydan. Durante as buscas nas casas e fazendas, o Capitão Pedro utilizava varas compridas de bambu, que eram enfiadas entre as tábuas dos assoalhos das casas e várias vezes ouviram-se gritos de homens escondidos sob o piso de madeira.

“O cara tomava uma estrepada na bunda e gritava, carma que eu vô sai”.

Após as investigações do Capitão Pedro, Alírio foi processado e ficou preso por alguns anos no Departamento de Investigações, de onde saiu direto para Santa Maria do Suaçuí, não acreditando que poderia ocorrer vingança pelos constrangimentos, espancamentos e tortura a que vários moradores da cidade foram submetidos por sua causa, principalmente “Geraldinho” Lima. Segundo contam os moradores da cidade, Capitão Pedro encheu um tambor de bosta com pequenas perfurações, no alto de um cômodo e ali vários suspeitos, das famílias Jardim e Lima, foram colocados, enquanto resquícios de fezes caíam sobre suas cabeças.

“Todos ficavam piados e não adiantava tentar tirar a cabeça do lugar, pois saía de uma merda para cair em outra”.
Alírio envolveu “Geraldinho” Lima com a falsa acusação do empréstimo da arma e causou a revolta dos filhos “Dico” Lima e Cirilo Lima. Não adiantou ficar cerca de sessenta dias na “moita”, em uma fazenda na zona rural de Santa Maria. No primeiro dia que foi à cidade, esteve na feira, parando seu Jipe para ver o movimento, quando Cirilo aproximou-se por um lado do veículo, enquanto “Dico” Lima foi abaixado pelo outro. Enquanto Alírio estava atento a Cirilo, “Dico” Lima disparou vários tiros com projéteis envenenados, matando-o na hora.

“E para enterrar esse homem? Ninguém queria aceitar o corpo. Nem Santa Maria, nem Cristais, nem Folha Larga. Ninguém”.

 

Fotos de Santa Maria do Suaçui e Jardineira, de Igor Drumond Soares. Década de 50.

 

Neném do Gentio

Antes do assassinato de Nacip Raydan, ocorreu uma outra tentativa contra o político, no princípio dos anos 60, envolvendo seu sobrinho conhecido por “Neném do Gentio”. Segundo depoimentos colhidos de pessoas que moraram em Santa Maria do Suaçuí, “Neném do Gentio” era fazendeiro na zona rural e teria contratado um pistoleiro de Governador Valadares para matar Nacip Raydan. O pistoleiro esteve na cidade para fazer levantamentos e constatou que o deputado era pessoa querida da população e ajudava os pobres com remédios e alimentos, angariando enorme simpatia na região, onde não perdia eleição. O pistoleiro teria pensado, “este homem é bom demais, eu não vou matar este homem não”. Procurou o deputado que percebeu que ele estava armado, mas aceitou a conversa.

“Era homem que não tinha medo de nada”.

O pistoleiro contou a história e a oferta de uma grande importância em dinheiro, pelo seu sobrinho “Neném”, para matá-lo. Nacip teria dito:

“Se ofereceram quinhentos mil, minha cabeça vale um milhão e eu te ofereço o dobro para você voltar e matar o mandante”.

O homem aceitou a proposta e voltou à fazenda de “Neném do Gentio” que veio recebê-lo de cuecas e perguntou se tinha feito o serviço. O pistoleiro sacou sua arma e matou “Neném do Gentio”. Contam que Nacip, após o fato, teria dito na cidade que realmente mandou matar o sobrinho. Era questão de sobrevivência. Ou ele ou o sobrinho.

Os crimes da família Leite na visão de Geraldo Horta

Um dos primeiros crimes narrados por Geraldo foi o de José Alves Afonso, o “Zeca da Lia”, assassinado em 1956 com tiros pelas costas, quando se encontrava na barbearia do “Dito”, em Santa Maria do Suaçui. Este crime seria o primeiro de José Leite, sendo a vítima seu cunhado, casado com a irmã Lia. Nas décadas de 60, 70, 80 e 90 inúmeras pessoas morreram vítimas das balas assassinas encomendadas pela família Leite, dentre elas os dois filhos do Joaquim do Ó, crime empreitado para o pistoleiro Joel Moreira Alves, que por sua vez subempreitou para os pistoleiros “Peba” e “Deca”. Assassinaram Sálvio, “Carlinho”, “Bedeu”, “Santinho Pego” e um fazendeiro conhecido como Joel, por ser considerado valente e “peitudo”, temido pelos irmãos Leite. Ivan Pimenta, fazendeiro da região, vendeu uma fazenda para Adalberto, avaliada em torno de cem milhões de cruzeiros nos anos 70, foi cercado na estrada pelos Leite que lhe ofereceram vinte e dois milhões de cruzeiros. Caso contrário, comprariam da viúva.

O pistoleiro “Sebastião do Arciso”, autor da morte de “João Pego”, foi também responsável pelo crime que vitimou uma proprietária de terras na localidade denominada Catequese. A mulher foi enforcada e enterrada em uma cova aberta por Mário, vaqueiro de Zé leite ou Alírio. Segundo contam, as terras atualmente são fazendas dos Leite em Catequese, onde o vaqueiro Mário trabalhava. Joaquim Ferreira da Costa, um dos companheiros de Albino, foi morto por Antônio “Roseteiro” e depois assassinado pelo pistoleiro Albino, a mando dos Leite, por vingança. Foram citados os homicídios de Ademir Quintino Santos e Geraldo do Crispim (1968), Emídio Gonçalves, Galileu, e Stael. “Geraldo de Sérgio Alegre” era pistoleiro e foi morto por José Antônio, filho de Artur Eustáquio Leão, como queima de arquivo, por que sabia demais sobre os Leite. “João da Donata”, morto por Hélio “Tizilim”, com arma e munição fornecidas por Toninho Leite e Albino, sendo o último, pivô da chacina de Malacacheta. Vicente Matias, também pistoleiro dos irmãos, foi assassinado pelo “Zinho” e seu irmão, dentro de um bar, quando ia receber dinheiro de Aldécio.

Pedrelino está na lista de assassinatos, cujo corpo foi jogado em frente à cadeia de Malacacheta. Juca Peão e família também foram mortos, crime que teve seu início em Capelinha, com a morte de Antônio Campeiro. Mesmo fugindo para Imperatriz, Maranhão, a família foi perseguida e dizimada naquele estado. São também computadas a família as mortes de Joel, pistoleiro morto no hospital de Poté. João “Bundão”, Benedito “Preto”, “Zé Pretinho” e Davi Campeiro, cuja fazenda de Jacutinga foi tomada com o uso de violência. José Bernardino Pereira (1983), Santos Ferreira de Araújo (1984), José augusto de Andrade e família (1990), João Ferreira de Araújo (1990), Djalma Alves dos Santos, Elvércio Alexandrino Augusto (1992), João Batista dos Santos e seu filho de sete anos (1981), Wander Campos (1974), Antônio Benedito dos Santos, o Benedito “Preto”, em 6 de maio (1969), Felisberto Monteiro Silva (90), Galileu Vidal de Oliveira (1980), José Isac de Souza e seu filho Edil Geraldo de Souza (1987), João Maria Pereira de Souza (1985), José Antônio de Souza, Humberto Cordeiro (1990) e inúmeros outros crimes que não foram citados, talvez por terem caído no esquecimento, ou simplesmente por que foram enterrados em cemitérios clandestinos, carbonizados ou de alguma forma os corpos não foram encontrados ou identificados. Um detalhe interessante que se constata na vida dessa família é que vários nomes são citados primeiramente como matadores e depois surgem como vítimas. A explicação é simples. Os irmãos leite usavam e sugavam o que podiam dos pistoleiros, em seguida como queima de arquivo ou para o não pagamento de empreitadas, mandavam outros matadores exterminá-los, como mercadoria descartável.

Em vários crimes, como o assassinato de Joel no hospital, a chacina de Malacacheta, a morte de Nicolau em Peçanha e de um casal de velhos fazendeiros em Conselheiro Pena, os pistoleiros dos irmãos Leite usaram documentos, fardas ou coletes para se passarem por policiais e facilitar a consumação de seus crimes. As vítimas, em todos os casos receberam seus algozes acreditando serem policiais, sendo surpreendidos pelos assassinos através da simulação.

Emboscada e Morte do Deputado Nacip Raydan

A morte de Nacip Raydan também é registrada na reportagem de 50 anos de sua morte pelo repórter Arnaldo Viana, do Jornal Estado de Minas.

Há 50 anos, o médico e deputado estadual Nacip Raydan Coutinho foi assassinado na porta de sua casa, em Santa Maria do Suaçuí, numa trama que envolveu política, inveja e traição

Arnaldo Viana – Estado de Minas

Publicação: 14/04/2012 

Há exatos 50 anos, um assassinato fez tremer o mundo político de Minas Gerais, pois acirrou ainda mais a grande rivalidade que havia entre os dois partidos mais fortes do estado, a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD). Foi no entardecer de 14 de abril de 1962 que o médico e deputado estadual Nacip Raydan Coutinho tombou diante da garagem de sua casa, em Santa Maria do Suaçuí, Vale do Rio Doce, com três balas calibre 38 no corpo. Um crime de mando só esclarecido porque entrou em cena um personagem legendário das páginas policiais mineiras, o coronel PM Pedro Ferreira dos Santos. Mesmo assim, ele só chegou aos mandantes e ao executor depois de meses de diligências, pistas falsas, mentiras, intrigas, interrogatórios e prisões na então conturbada Região Leste, na época dominada por homens ganaciosos e pistoleiros de aluguel barato.Nacip Raydan pertencia ao antigo PSD e o governador na época era Magalhães Pinto, da UDN. O deputado era, portanto, um representante da oposição. E não era um opositor qualquer. Era ferrenho ousado, autoritário, audacioso e persuasivo. Do tipo que a legenda precisava na sua luta ferrenha contra os adversários. Esclarecer o assassinato tornou-se prioridade para o palácio do governo, para, principalmente, dissolver o falatório, satisfazer as cobranças da imprensa e tirar dos ombros do governador qualquer tipo de suspeita. As investigações começaram com o delegado Newton Nogueira Campos, da Delegacia Especializada de Segurança Pública, mas não avançava.A imprensa fazia seu papel: exigia a imediata apuração, diante das especulações que sacudiam a comunidade política. Os partidos de oposição na Assembleia Legislativa se uniram e formaram uma comissão para acompanhar o caso, que continuava incomodando o udenista Magalhães Pinto. Então, alguém soprou nos ouvidos do governador que só havia um homem capaz de esclarecer a emboscada e botar os assassinos na cadeia. Era o coronel Pedro Ferreira dos Santos. O governador encarregou o então secretário de Segurança pública, Faria Tavares, de chamar o militar, famoso por desvendar crimes nas regiões Leste e Nordeste de Minas. 

Jornal Estado de Minas  – Nacip Raydan                                                        Jornal Última Hora-29 de agosto de 1963.  Coronel Pedro Ferreira e reportagem sobre o jaguncismo.                                                                                                                                                         



Saga

Pedro Ferreira já estava na reserva, mas resolveu aceitar o desafio. Só a citação de seu nome fazia a bandidagem do Leste mineiro tremer e escapulir para outras bandas. O coronel pediu verba de Cr$ 1,5 milhão (dinheiro da época) para custear as diligências. Sabia que teria de fazer muitas viagens. Nada lhe foi negado pelo palácio. E em 21 de abril de 1962 o legendário coronel desembarcou em Santa Maria do Suaçuí para iniciar o desembaraço da rumorosa execução. 

A repercussão era tão grande que o Estado de Minas destacou o repórter Fialho Pacheco, que se tornou notável por ter ganhado três vezes o Prêmio Esso de Reportagem, para não só acompanhar os passos de Pedro Ferreira como também se antecipar às investigações. No livro Um certo delegado de capturas, o também coronel Klinger Sobreira de Almeida narra toda a saga de Pedro Ferreira, com quem trabalhou na espinhosa missão de botar na cadeia os assassinos de Nacip Raydan. Klinger descreve muito bem como a violência reinava no Leste mineiro naquela ocasião:

“Os caminhos percorridos por certos chefes da política regional não são sempre os indicados pela decência e lealdade para com os adversários. As dezenas de cruzes espalhadas por suas ermas estradas, salpicadas de sangue do inimigo descuidado, retratam a mentalidade de ultrapassados grupos políticos, que, naquelas paragens, digladiam pelo mandonismo municipal. Não há lugar para os que discordam, para os que ousam quebrar as falsas unanimidades das convenções, para os que sobressaem da mediocridade geral. Os que assim agem e os que assim pensam são sumariamente afastados, por bem ou por mal.”

 

Era esse cenário que Pedro Ferreira iria percorrer, o que não era novidade para ele.

Os acusados

Depois de muitas pistas falsas, prisões equivocadas ou não, Pedro Ferreira chegou aos mandantes e ao executor. Em 16 de novembro apresentou seu relatório com os nomes dos acusados.  De acordo com o livro Um certo delegado de capturas, o corajoso coronel relacionou sete nomes: Rodolpho da Silva Lima e seu irmão Geraldo Benigno Lima como mandantes, João Alves de Oliveira e Alírio Bastos, como articuladores, com a colaboração de José Ferraz Salgado e Wantuil de Paula Neves; e Ozacife Lopes de Carvalho, o pistoleiro que emboscou em atirou em Nacip Raydan.

De acordo com o relato de Pedro Ferreira, contido no livro, Nacip, enquanto estudava medicina no Rio de Janeiro, perdeu o pai, José Nacip Raydan, assassinado em uma emboscada. Como a polícia não deu conta de esclarecer o crime, ele fez justiça com as próprias mãos, ordenando a morte de mandantes e executores. Apesar da fama de durão, quem chegou a Santa Maria foi um homem cativante, educado, de sorriso fácil, simpático, que inspirava confiança, audacioso e corajoso. Era a pessoa certa para a direção política do município e escolheu o PSD, partido de oposição ao governo estadual até o início da década de 1950. E Nacip tornou-se um líder político respeitado em toda área de influência do município. Em 1951, seu partido chegou ao governo do estado. Em 1954, foi eleito prefeito de Santa Maria. E, em 1959, deputado estadual, mandato que não terminou. “Sua vontade era única e soberana. não admitia réplicas nem contestação. Os aliados o temiam e fingiam aceitar tudo”, escreveu Klinger. Em 1960, com a saída do PSD do governo, os adversários de Nacip tentavam se fortalecer para enfrentá-lo nas urnas. Um deles, Geraldo Lima, que ocupara o cargo de prefeito por duas vezes, tentou se candidatar novamente, pelo PSD, mas Nacip, com forte influência no partido, impediu. Geraldo, era acusado de ter mandado matar um dos empregados da fazenda do médico, que, por isso, não confiava nele.

Vingança

Geraldo tentou o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas Nacip, amigo da cúpula petebista, conseguiu barrá-lo novamente. Geraldo tentou a UDN, que o recusou. Vaidoso e ganancioso, Geraldo sentiu-se ofendido e se aproximou de Alírio Bastos, um aventureiro, que aceitou a empreitada de tramar a morte de Nacip Raydan por 400 mil cruzeiros (dinheiro da época). Rodolpho da Silva Lima, irmão de Geraldo, financiaria a maior parte: 300 mil. Aliou-se ao grupo o escrivão de polícia João Alves, que pagaria o restante, e José Ferraz Salgado, para ajudar Alírio na coordenação do crime. João era amigo, companheiro de política e compadre do médico e deputado, mas o odiava porque nunca era ouvido nas decisões e o invejava. Alírio ofereceu 100 mil cruzeiros ao pistoleiro Wantuil de Paula Neves para atirar em Nacip, mas ele recusou a oferta e indicou Ozacife Lopes de Carvalho, morador de Galiléia, para a tarefa. Ozacife foi levado a Santa Maria e ganhou de Geraldo um revólver calibre 38 e balas envenenadas com formicida. Por vários dias, vestido quase como mendigo e com um alforje pendurado nos ombros, rondou a casa de Nacip. No dia 14 de abril, Alírio, seguindo o planejamento, bateu na porta do médico e deputado e pediu a ele que fosse atender a sua adoentada sogra. Nacip foi e, na volta, o pistoleiro Ozacife o esperava. Foram três tiros e as balas envenenadas causaram hemorragia interna, matando-o. Um crime cometido por disputa política, inveja, ganância e ódio. Mas, o trabalho do coronel Pedro Ferreira não acalmou de imediato a imprensa e o mundo político. A insinuações continuaram por um bom tempo. A viúva de Nacip, Idelze Petrucelli Raydan, de 77 anos, cansada de tanto falar e de escrever sobre o caso, não quis fazer comentários sobre os 50 anos da morte do marido.

 

II Capítulo – O Império das Mortes

“O Império do medo se instalou em Malacacheta”. Padre Francisco Esteves Pimenta.

 As Surras e as”Mangas”.

“Zé Guaxe” foi empregado dos irmãos Leite desde pequeno e quando tinha 13 anos foi chamado por Toninho Leite que lhe falou para lhe encomendar uma surra em Lúcia Matias que estaria fazendo intrigas com o nome de sua mulher:

Ocê vai dar uma surra na Lúcia Matias pra ela aprendê a cunversá fiado cum nome da minha muié”.

Toninho disse mais:

“Se ela triscar, a Noélia vai dá um tiro na cara dela”.

“Zé Guaxe” deu a surra, batendo bastante na mulher, enquanto Toninho, sua esposa Noélia e outros empregados assistiam. Zé Guaxe alegou que o fez por medo dos irmãos Leite,  caso não cumprisse, ele é quem apanharia. Lúcia saiu da sede da fazenda bastante debilitada e capengando pelos chutes que tomou, prometendo veladamente que iria se vingar. Realmente, tempos depois, Lúcia Matias contratou Antônio Muladeiro ou “Morenito” para matar “Zé Guaxe”, mas não conseguiu levar a termo a empreitada por terem descoberto antes que o crime fosse consumado. Esse tipo de surra era comum nas fazendas dos irmãos Leite contra empregados e pequenos desafetos.

A certeza de impunidade dos irmãos Leite pelos crimes praticados é facilmente constatada, ao verificarmos em uma certidão da secretaria do Juízo da comarca de Malacacheta, o registro de Zé Américo, em 26/06/70, como um dos membros do conselho de sentença, em um julgamento, que Alírio, José Leite e João Belchior dos Santos foram acusados da morte de Ademir Quintino dos Santos e outros. Apesar de “Zé Américo” ter sido processado e investigado em vários crimes com os irmãos Leite, participou desse julgamento. Todos os acusados foram absolvidos.

Dentre os hábitos dos irmãos Leite, um era sádico, principalmente de “Toninho” e Aldécio Leite que espancavam os vaqueiros e empregados. Geralmente mandavam “Giramundo” ou outro pistoleiro praticarem as agressões. “Zé Guaxe” era vítima das violências e maus tratos e de certa feita foi espancado por recusar colocar o gado de Aldécio Leite na “manga” de um fazendeiro conhecido por Maurício Campos, sendo obrigado a fazer o procedimento ilegal, temendo ser assassinado. O hábito dos irmãos Leite consistia em roubar as “mangas” dos outros, que em outras palavras significa colocar o gado de suas propriedades nas fazendas de seus vizinhos, usando seus pastos sem autorização. Os irmãos Leite mandavam arrombar porteiras, cortavam cercas e colocavam seu gado para pastar por vários dias. Segundo “Zé Guaxe” o objetivo em relação a Maurício Campos era o de provocar a reação do mesmo para posteriormente o matarem e ficarem com sua fazenda, já que tinham inveja do curral e da organização daquele fazendeiro. “Zé Guaxe”, antigo vaqueiro dos Leite, afirmou que os irmãos Leite tinham envolvimento com furto de gado, “misturavam o seu gado com o dos outros, fazendo retornar todos juntos depois para que fossem carimbados em sua fazenda”. Ocorreu o caso de um boi de cor preta, de “Nô” Barroso, abatido e colocado em uma caminhonete para presentear “ôtoridades” que gostavam muito dos “meninos”(irmãos Leite)”. Os Leite mandavam matar gado das propriedades vizinhas e faziam fartas churrascadas para autoridades diversas.

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Água Boa e Malacacheta.

A Morte pelas Terras

     

“É mais fácil comprar terras de uma viúva apavorada do que dos legítimos proprietários”. Delegado Nilton Ribeiro de Carvalho.

A ideia de registrar os fatos envolvendo o jaguncismo no Vale do Mucuri e os irmãos Nunes Leite surgiu a partir da chacina de Malacacheta, cuja repressão, à época, foi liderada pelo delegado Nilton Ribeiro de Carvalho e José Resende de Andrade, respectivamente chefe do Departamento de Investigações e Secretário de segurança. Durante as diversas diligências realizadas, aflorou uma enorme gama de acontecimentos que iniciaram na década de 50 com envolvimento de membros da família Nunes Leite e outras em crimes diversos e prosseguiram nas décadas seguintes. Falava-se muito dos crimes e atrocidades, mas achávamos que existia muito folclore nas histórias contadas até começar a entranhar na vida daquela família, buscando trazer à luz da justiça, os criminosos envolvidos nos bárbaros crimes durante algumas operações realizadas. Buscamos através de pesquisas em documentos, testemunhos e reportagens diversas, trazer a realidade do que aconteceu, sem buscar emitir opiniões ou julgamentos pessoais sobre essa história de sangue.

No rosário de mortes atribuídas a família Leite, a grande maioria se deu por pistolagem e o móvel era a ganância pelas terras alheias, onde a vida daqueles que não se submetiam às suas vontades não valia um vintém furado. Caminhando pelas bandas de Água Boa, Malacacheta, Capelinha e Santa Maria do Suaçui, conversamos com pessoas simples, comerciantes, fazendeiros, enfim, com o povo da região, pessoas que antigamente os temiam e hoje se atrevem a narrar os casos, mesmo sabendo que as conversas eram gravadas para esse registro. Relatam seus crimes, suas vitimas e as circunstancias em que ocorreram. Como uma memória de computador as pessoas armazenaram em seus cérebros todas as informações e guardaram durante muitos anos com uma senha que os impedia de sequer comentar o assunto, esperando o momento seguro para se manifestarem e “abrir o programa”.

Conquista de Terra e Política

“… Eles apoiaram e elegeram vários políticos na região, disse o delegado Raul Moreira, lembrando do assassinato do candidato a deputado Vander Campos, ocorrido em 1974… Mas, as terras, são, sem dúvida, o principal motivo que faz os Leite envolverem-se em assassinatos, de acordo com o delegado Moreira. Basta observar os inquéritos que passaram pela Divisão de Crimes Contra a Vida. A maioria das vítimas são pequenos e médios fazendeiros, cujas terras são cobiçadas pelo clã dos Leite. Segundo o delegado Otto Teixeira , os Leite alimentam uma briga antiga com a família Augusto Cordeiro, também proprietária de terras na região.”

Trecho do livro SÓ OS FORTES SOBREVIVEM, do detetive “Paulo Maloca”.

“Era público que os Leite adotaram um esquema de pistolagem para se apossarem de propriedades, aumentando em muito, aumentando o medo e impondo seus desejos de cada vez terem mais terras. Muitas delas não eram legalizadas por terem assassinado os legítimos donos ou simplesmente os terem expulsado. Todos sabiam e diziam na região que assim fizeram com o fazendeiro “Zeca da Baiana”, após mandarem matá-lo no centro da cidade de Santa Maria do Suaçui, em uma barbearia, apossando-se de suas terras. Da mesma forma agiram com outros fazendeiros na região, adquirindo mais terras em situações obscuras, tais como a fazenda Plataforma, na região do Bomfim, distrito de Água, de Telvino da Luz; a fazenda dos Peões, de Juca Peão e D. Geralda, família esta, dizimada no Estado de Minas e em Imperatriz, no Estado do Maranhão, em situações nebulosas…”

Iniciado o império dos irmãos Leite naquela região afastada de tudo e todos, onde a lei era predominantemente dos mais fortes, os assassinatos passaram a acontecer através de emboscadas noturnas nas traiçoeiras estradas de terra e depois em plena luz do dia, à vista de todos, que se calavam cada vez mais, com medo de ser o próximo da lista. Os irmãos Leite deixaram de ter inimigos ou desafetos. Todos eram eliminados e pistoleiros de aluguel ou simplesmente jagunços da região, criados em suas fazendas, assumiam os crimes sem denunciar seus “patrões”. Em São João Evangelista, outros irmãos, os “Curió”, também cometiam uma série de assassinatos. No Vale do Mucuri e Rio Doce, os crimes de pistolagem cresciam, assim como, a impunidade daqueles que matavam ou mandavam matar.

Reportagem do Jornal Estado de Minas sobre a pistolagem e os irmãos José, Aldécio, Antonio e Alírio Nunes Leite, presos no DOPS, na década de 70.

A tentativa de homicídio contra Aldécio Leite

No final da década de 70 e princípio dos anos 80, a situação na região do Vale do Mucuri estava insuportável pela série de assassinatos de proprietários rurais e pessoas residentes nas cidades de Água Boa, Malacacheta, Santa Maria do Suaçuí e Capelinha, crimes atribuídos à família Leite, que compravam as terras na região e não saldavam as dívidas, determinando a morte daqueles que ousavam cobrá-los. A família Leite para atingir seus objetivos mandava bater, sequestrar e matar, ou mantinha em cárcere privado, como fizeram com Djalma Alves dos santos em 1972.

Neste clima, na virada da década, ocorreu uma reunião com fazendeiros da região, dentre eles Juca Peão e Emídio Gonçalves que resolveram enfrentar os Leite, utilizando os mesmos meios que seus oponentes, a pistolagem. Por se tratar de pessoas trabalhadoras no meio rural, que viviam de suas atividades agrícolas e pecuárias, os fazendeiros deram com os burros n’água pela inexperiência com o crime. Contrataram um pistoleiro para matar primeiramente Aldécio Leite, dando-lhe todas as instruções para a emboscada e a promessa do pagamento após trazer a orelha de Aldécio. O pistoleiro dirigiu-se para o lugar denominado Urupuca, próximo a uma lagoa onde existia uma vasta cultura nativa de taboas, e ficou a espreita. Com a chegada de Aldécio naquele local, o pistoleiro efetuou disparos em sua direção, atingindo-o na perna, que ato contínuo, em sua defesa, sacou de sua arma, um revólver calibre 38, efetuando cinco disparos e enfurnando-se no meio do taboal, onde a água se misturava ao barro e lodo, formando uma camada espessa. Aldécio afundou-se no meio da lama, com apenas parte de sua cabeça para o lado de fora, coberta pela vegetação e uma das mãos com a arma que tinha apenas uma cápsula no tambor. O pistoleiro, na cegueira de cumprir sua empreitada e receber seu dinheiro, não tomou as precauções devidas para a ocasião e iniciou a procura do corpo de Aldécio para arrancar-lhe a orelha, julgando-o morto. Ao se aproximar de Aldécio, não percebeu que ele estava a poucos passos e camuflado, recebendo um único tiro na cabeça, tendo morte instantânea. A partir daí os irmãos Leite acirraram a sua sede de sangue, transformando a vida dos fazendeiros e familiares daquela região, conforme vamos verificar nos próximos registros.

Tentativa de morte de Williamar Ferreira Seixas
Williamar era empregado de Idalmo, um comerciante de queijo e frequentemente ia às fazendas dos irmãos Leite para comprar o produto que era levado até Malacacheta, onde seu patrão providenciava as embalagens para posterior venda do em Belo Horizonte. Por esta razão, Williamar conhecia todas as pessoas que conviviam naquelas fazendas, dentre elas uma mulher conhecida por Ednamara, que residia nas terras de Zé Leite e segundo comentários seria sua filha com uma lavradora conhecida por “Nega”, moradora do morro do cipó, em Malacacheta. Com as idas e vindas à fazenda de Zé Leite, Williamar passou a se relacionar com Ednamara e os comentários começaram a incomodá-lo, que não aceitava a boataria envolvendo o nome de sua filha, que Williamar estaria “fazendo mal” a sua filha. Zé Leite contratou os serviços de Israel e lhe deu um revólver calibre 38 para dar cabo a empreitada. Israel, utilizando uma máscara, tentou matar Williamar na casa dele, mas apesar de baleá-lo não conseguiu matá-lo, ficando apenas na tentativa. Após o crime, Israel foi para a Fazenda Urupuca, quando Toninho Leite lhe chamou a atenção com as seguintes palavras:

“O Zé Leite mandou matá o homem e não relá ele”.

Placa e mapa da região. Reportagem do Jornal Diário da Tarde sobre a tentativa de morte de Williamar.
Jornal Diário da Tarde-21/1/1992 – Mais uma dos Leite
Queijeiro Baleado

Insatisfeito porque a filha mantinha um romance com o queijeiro Williamar Ferreira Seixas que era casado, José Nunes Leite chamou Israel Ferreira Paulino, pistoleiro da família e ordenou que ele matasse o homem… Acostumado a manejar seu revólver calibre 32, Israel, na tarde de 29/9/1987, recebeu de José Leite, um revólver calibre 38, conforme disseram as testemunhas ouvidas pela polícia. O pistoleiro escondeu-se em Malacacheta e quando o queijeiro chegou na Rua José Luiz Pego 111, às 21:30 e guardou o carro na garagem, foi baleado. O pistoleiro o atingiu no peito. A bala atravessou seu corpo e Williamar ficou em estado grave. Levado inicialmente para o Hospital de Malacacheta, ele foi transferido para Teófilo Otoni, onde recuperou-se … O irmão de José Leite, Antonio Nunes Leite, ou Toninho Leite, mandou a camionete apanhar o pistoleiro e levá-lo para a fazenda Urupuca, de propriedade da família Nunes Leite. Lá uma testemunha ouviu o diálogo bastante elucidativo para a polícia, quando Toninho Leite disse para Israel:  O Zé mandou você matar o homem e não arranhá-lo… O delegado Otto Teixeira disse que as provas são inquestionáveis.

A Morte de Vander Campos

Wander Campos era um homem de estatura avantajada que se impunha pelo seu físico, sendo arrebanhado nos anos da ditadura, por volta de 1964 a 1965, pelo General Bragança, para trabalhar a serviço do governo. Naquela época pessoas comuns eram recrutadas como voluntárias para servirem nas “Brigadas dos Civis”, que na realidade eram compostas de homens alcunhados de “bate-paus”, que usavam de violência e arbitrariedades para conter os revoltosos ou opositores do regime. Muitas pessoas foram assassinadas e as mortes atribuídas ao pessoal de Wander Campos, sob as vistas grossas de Coronel Pedro, delegado especial na região de Governador Valadares. Em um de seus crimes Wander chegou a ser preso e levado para o Dops, onde servia café, enquanto cumpria seu mandado de prisão. Como era ligado ao governo, conseguiu através do governador Rondon Pacheco, o indulto presidencial, voltando para o Vale do Mucuri. Nessa ocasião conheceu Stael, filha do Gabi Campeiro com quem amasiou. A partir do relacionamento com Stael, Wander Campos passou a ser cobrado pela mulher, em relação a uma vingança contra os Leite pelo assassinato de um parente de seu pai, Gabi Campeiro, cuja morte era atribuída a “Zé Leite”. Como Wander Campos era um homem de valentia inquestionável, se propôs a acabar com os irmãos Leite, atendendo ao desejo de vingança da mulher, chegando a comentar com pessoas ligadas ao coronel Pedro a sua intenção. Em meados de 1974, Wander compareceu em uma audiência cível no fórum de Peçanha, quando chamou os irmãos Leite de “cagões e ladrões de terra”, com eles presentes na audiência. Os irmãos ficaram ressabiados com os xingamentos e a raiva se acirrou quando tomaram conhecimento através do amigo coronel Pedro, que Wander Campos estaria contratando pistoleiros para acabar com sua raça. Apesar de temê-lo pelas suas mortes e o estreito relacionamento com os militares, os irmãos Leite começaram a arquitetar seu assassinato. Naquele ano Wander candidatou-se a deputado estadual e começou suas viagens de campanha política pelo Vale do rio doce e Mucuri.  Mesmo advertido pelos seus correligionários a não andar pelos lados de Água Boa, Wander não acreditou e foi tentar conseguir alguns votos naquela região. No dia sete de outubro de 1974, por volta das 13.00 horas, quando entrava em Água Boa, foi interceptado por Aldécio, Alírio e “Zé Pretim”, quando esboçou a reação de sacar seus dois revólveres Magnum que trazia na cintura, mas foi abatido pelos tiros certeiros de Alírio Leite. Apesar de todas as provas contra eles, foram julgados e absolvidos em Capelinha, quando atuou na defesa o advogado Marcelo Linhares e na assistência de acusação Rogério Augusto de Souza. Dois baluartes de júri da capital mineira dos anos 70 e 80.

As Barbaridades Contra Emídio Gonçalves

Conforme registrado em artigo anterior, no final dos anos 70, os irmãos Leite tomaram conhecimento que um grupo de fazendeiros formado por Galileu Vidal, Gabi Campeiro, Sidalvo Chaves, Emídio Gonçalves e seu filho José Chaves estariam arquitetando suas mortes, como vingança pelos inúmeros crimes contra outros fazendeiros, temendo serem assassinados por causa de suas terras. Naquele período, agosto de 1979, Aldécio Leite foi emboscado e levou um tiro, enquanto seu empregado “Braulinho”, pai de “João Bundão” morria em razão de tiros recebidos. Os Leite não esperaram para saber se as informações tinham procedência e iniciaram a ofensiva, contratando os militares Sargento Gomes e Edésio, além dos soldados Zé Henrique, Jader e um garçon conhecido por Joel para consumar os crimes contratados. No caso da morte de Emídio Gonçalves,em janeiro de 1980, as notícias dão conta que “Toninho” Leite, “Ofenir Soldado”, Aldécio, “Zé Pretim” e o coronel Rui foram até a fazenda da vítima com uniformes da Polícia Militar, invadiram a propriedade onde dominaram Emídio e o conduziram a força para uma estrada onde Aldécio os aguardava. Emídio foi levado para o mato, suas pernas e seus braços foram quebrados, seus olhos furados, seu pênis arrancado à faca e uma lasca de Baraúna foi enfiada em seu ânus, que segundo uma testemunha, “penetrou até a garganta”. Deixaram um aviso:

Todos que perseguiram os Leite terão o mesmo destino”.

 

“Jornal Diário da Tarde-5/2/1992

Vaqueiro incrimina os Nunes Leite

Castrados

O vaqueiro esclareceu para a polícia, que Emídio Gonçalves foi morto por Toninho Leite e mais três pistoleiros. O vaqueiro falou que ouviu dos também vaqueiros Jorge Picança e Divino Picança que trabalhavam para Emídio, que presenciaram o crime. De acordo com as declarações, no dia do crime, os vaqueiros viram quando quatro homens fardados chegaram na fazenda de Emídio, dentre eles, Toninho Leite. Os dois vaqueiros estavam no curral e saíram correndo para o mato, mas avistaram os quatro arrastarem Emídio Gonçalves para debaixo de uma amoreira… deixando o corpo debaixo da árvore, mutilado. Os dois vaqueiros, depois disso, foram trabalhar para a família Nunes Leite.”

Foram processados pelo crime Alírio, José Leite e João Belchior, sendo absolvidos por um conselho de sentença, onde um dos integrantes era José Américo Sales Brandão, pessoa totalmente envolvida com a família. José Américo era a pessoa que estava com “Toninho Leite” na camionete no dia de seu assassinato, quando recebeu um tiro nas nádegas. Segundo as informações colhidas, o coronel Rui era o responsável pela elaboração da maioria dos inquéritos policiais contra a família Leite,  distorcendo as provas  para beneficiá-los.

Galileu, a Emboscada no Aeroporto de Capelinha

Galileu Vidal de Oliveira era um dos fazendeiros da lista dos irmãos Leite marcados para morrer, no entanto eles tinham uma dificuldade para matá-lo em razão de residir em Governador Valadares. A família Leite tinha um acordo com o coronel Jair Alves Pinheiro de não matarem ninguém em sua região militar, sendo ele comandante do Batalhão PM de Valadares. Como Galileu desconhecia esse trato, aceitou ir ao encontro dos irmãos Leite em Capelinha, onde selariam um almoço da paz para acabar com a rixa existente entre eles. Não podia desconfiar de seu amigo Telles, que também era bem relacionado com os Leite e era o intermediário do encontro. Era uma armadilha mortal. Em 8 de dezembro de 1979, por volta das 10:00 horas, Galileu embarcou em uma aeronave no aeroporto de Governador Valadares em direção à morte, desembarcando às 11:20 horas da manhã em Capelinha, onde Toninho Leite e quatro pistoleiros já o aguardavam próximo à pista de terra. Quando desembarcou para o “almoço de paz”, Galileu se dirigiu em direção a “Toninho Leite” para cumprimentá-lo, sendo lhe estendida uma mão enquanto a outra sacava uma arma, iniciando a fuzilaria. Galileu morreu alvejado por 29 tiros de projéteis envenenados por estricnina segurando a mão de “Toninho Leite”. Telles entrou desesperado na aeronave que levantou voo rapidamente enquanto o corpo ficava estendido no chão daquele aeroporto, em meio a uma grande poça de sangue. O susto e surpresa de Telles e o piloto foi tão grande que a aeronave decolou com a porta aberta e fizeram todo o percurso com essa irregularidade, só percebida ao aterrissarem em Governador Valadares. Foi um dos crimes de maior repercussão da família Leite, pela maneira fria e calculista com que seduziram Galileu a ir ao encontro de seu extermínio.
Muitos crimes foram atribuídos à família Leite, cujos processos foram arquivados por falta de provas ou de alguma testemunha que ousasse depor contra eles. De certa feita, em um desses processos, o delegado Raul Moreira presenciou uma cena inusitada envolvendo uma testemunha ocular de crime envolvendo os irmãos Leite, quando o juiz perguntou durante audiência se tinha alguma coisa a declarar. Ela disse ao juiz:

“Não doutô, eu tenho famía pra criar”.

O que a testemunha tinha para contar, não poderia ser contado.

Assassinatos como de José A. de Souza, em 29 de junho de 1980, as mortes de Santos Ferreira Araújo, em sete de dezembro de 1984, de Davi Campeiro, cuja fazenda Jacutinga, passou a ser propriedade dos irmãos Leite,  de João Maria Pereira de Souza, em vinte e oito de junho de 1985, são alguns dos crimes de pistolagem que certamente não tiveram o desfecho esperado nos julgamentos, pela ausência de testemunhas de acusação, pela presença de jurados coniventes ou apavorados pela possibilidade de um voto condenatório.

A Chacina do Maranhão. Família Juca Peão

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Mais um dos inúmeros crimes dos irmãos Leite motivados pela ganância por terras alheias ocorreu em 1983, quando contrataram Donizete Pereira dos Santos, o “Giramundo”, para matar José Bernardino Pereira, “Juquita Peão”, dono de uma fazenda em Água Boa. “Giramundo” se armou com uma espingarda e um revólver 38, ficando na tocaia perto de uma fazenda em Alexandrinópolis, mesmo município. Quando “Juquita” aproximou-se, o pistoleiro disparou vários tiros que o atingiram mortalmente. A família Juca Peão fugiu para Imperatriz do Maranhão com medo de serem mortos. Três pistoleiros foram contratados e viajaram para aquele estado onde assassinaram o restante da família de José Bernardino Pereira, dentre eles o Nonato e “Zé Paulo”. Ao todo, nove pessoas foram mortas.

“Durante a chacina, um dos filhos “Peão”,  ficou de longe vendo os seus familiares sendo mortos. Ele estava no mato buscando o gado. Ele fugiu para os EUA e quando vem por aqui, ninguém fica sabendo. Sempre ele vem disfarçado, vestido de mulher ou de pele escura, de barba, pois ele também é jurado de morte.”  Comentário de um internauta anônimo.

Para a consumação da chacina, contaram com a participação do fazendeiro Josélio Barros, de Baixo Guandu, que tinha propriedades naquela região e ligado ao jaguncismo desde os tempos de pistolagem em Aimorés e a cidade capixaba, na década de 60. Josélio deu apoio logístico e contratou o advogado que conseguiu a soltura dos irmãos Leite, quando foram presos naquele estado, como mandantes da chacina. As fazendas das viúvas de Nonato e José Paulo passaram a ser propriedade dos irmãos Leite.

ele

Segundo a reportagem do Diário do Rio Doce, de 5 de janeiro de 1984:

Foi preso na manhã de ontem, numa pensão da Avenida MG-4, em frente ao Posto Chimarrão, em Coronel Fabriciano, Robaldo Carvalhais Ferreira, que acusou o próprio pai, Trajano Ferreira do Nascimento, de Governador Valadares como mandante da chacina com morte de nove pessoas na fazenda próxima da cidade de Imperatriz, no Estado do Maranhão, no ano passado. Ronaldo confessou que foi seu pai, Trajano, quem mandou eliminar toda família dos Nonato por causa de terras e que um cidadão loiro, de nome Ferreirinha e os Irmãos Leite, esses da região de Água Boa seriam os exploradores do serviço…”.

Os assassinatos de José Izac de Souza e Edil Geraldo de Souza

No dia 24 de maio de 1987, Zé Izac e seu filho Edil foram friamente assassinados na cidade de Água Boa, Vale do Mucuri, por causa das divergências políticas que tinham com a família Leite, já que apoiavam um candidato contrário ao que os irmãos Leite indicavam como majoritário na região. Era um domingo e como é comum nas cidades do interior de Minas, pai e filho sentaram na varanda de sua casa, na Avenida Augusto de Lima, que corta a praça principal da cidade. Na pracinha, a espreita de suas vítimas, os pistoleiros “Carlinhos Pastor” e Elizeu aguardavam a cerca de vinte metros da residência das vítimas, debaixo de um caramanchão. Tão logo chegaram e sentaram-se na varanda, os dois pistoleiros se aproximaram e dispararam suas armas. Zé Izac tombou morto na própria varanda e seu filho Edil, mesmo baleado, conseguiu levantar após o impacto do tiro e caminhou até a cozinha onde morreu aos pés de sua mãe Elzira Pimenta de Souza. Antônio Nunes Leite (Toninho Leite) foi apontado como mandante do crime. Segundo comentavam na região, durante o velório, Aldeci soltou uma pomba branca em sinal de paz.

Os filhos do Joaquim do Ó

A certeza de impunidade dos irmãos Leite não tinha limites ou respeito a qualquer sentimento ético e moral, quando se tratava da ambição em apropriar de terras alheias. O caso de Joaquim Correia de Souza é um exemplo claro da prepotência daqueles irmãos. No dia sete de junho de 1989, Sálvio Correia de Souza, de 28 anos, da fazenda Córrego Novo, foi encontrado morto, com seis tiros, dentro de um mata-burro na localidade de Junco de minas, zona rural de Malacacheta, na fazenda Flor de Minas. Na mesma data, na fazenda Jacutinga, distante cerca de cinquenta quilômetros de Malacacheta, seu irmão Valdir Correia de Souza, de 26 anos, também apareceu assassinado com o corpo varado por diversos tiros. Os corpos dos dois irmãos ainda não haviam sido liberados do necrotério, quando “Joaquim do Ó” recebeu a notícia que seu último filho, Carlos Correia de Souza, de 23 anos, fora encontrado dentro de um buraco, crivado de balas, na estrada que liga malacacheta a Franciscópolis. Carlos estava desaparecido desde o dia anterior. O único crime dos três rapazes foi serem trabalhadores rurais, filhos de um pequeno fazendeiro cuja propriedade interessava a ganância mórbida da família Leite. Não foi difícil chegar aos matadores que “eram amigos” das vítimas e foram os últimos a serem vistos com eles. Gilson Moreira Alves, o “Deca” e Geraldo Moreira Lopes, o “Peba”, contaram friamente como mataram os rapazes.

Quando estavam na estrada de Malacacheta para Franciscópolis, em Córrego Novo, premeditadamente deram carona para Carlos Correia, por volta das 17:00 horas, parando o Fusca e descendo para “descarregar o intestino”. Enquanto “Deca” desceu em uma grota, seu companheiro deu três tiros em Carlos, que não esperava a agressão por confiar nos dois. Ele caiu morto dentro de um buraco. De lá os pistoleiros se dirigiram com o Fusca placa IK-4663 até a pensão de D. Sebastiana, onde pernoitaram. Por volta de 4:30 da manhã chamaram Sálvio Correia que também dormia no local para ir com eles até a roça. No caminho, quando chegaram próximo ao mata-burro, pediram para Sálvio dar uma olhada que parecia estar quebrado. Quando o infeliz abaixou-se para verificar, “Deca” deu dois tiros em sua cabeça com uma garrucha 380. Recarregou e deu outros dois tiros. Peba que portava um revólver 38 descarregou sua arma em Sálvio. Dali se dirigiram para a fazenda de Adalberto, no córrego Urupuca, encontrando Valdir Correia por volta de 11:00 horas. Valdir estava montado em um burro, levando queijos para entregar, quando “Deca” e “Peba” apanharam cavalos na fazenda de José Queirós e foram ao encalço do último irmão. Quando conseguiram alcançar Valdir, o cercaram apontando suas armas, causando espanto para o rapaz que gritou:

  “Que qué isso, nóis é amigo.

“Peba” retrucou:

“Amigo é o caraio”.

E começaram o fuzilamento, no total de dez tiros na vítima. Ao serem ouvidos no inquérito, os dois deram a versão estapafúrdia de que estavam sendo ameaçados pelos três irmãos e que Assis Costa Alecrim, conhecido por “Goiano”, havia sido contratado para matá-los. A realidade era outra. Aldécio e “Toninho” contrataram Joel para matar os irmãos e assim ficar com a fazenda de Joaquim do Ó. Joel, por sua vez, terceirizou a empreitada para “Peba” e “Deca”, que fizeram o serviço sujo, matando os três filhos de Joaquim. O pânico das pessoas em relação aos irmãos leite era tanto que Joaquim do Ó ao ser ouvido na delegacia declarou:

“que não desconfia dos Leite, nem de Toninho, nem de Adelson, pois eles são muito amigos do depoente”.

Um detalhe interessante, coincidência ou não, os advogados que acompanharam e assistiram os criminosos são os mesmos que patrocinavam a família Leite.

Reportagem sobre os filhos de Joaquim do Ó e as razões dos assassinatos. Prisão dos Irmãos Leite, no DOPS. Capa do Livro SÓ OS FORTES SOBREVIVEM.

MORTE EM MALACACHETA. Diário da Tarde. 4/2/1992.

Disputa de terras motivou o crime.

Disputa de terras. Este é o motivo do assassinato de Joel Moreira Alves, o Jó, no dia 19 de julho de 89…
A polícia já sabe que Jó pretendia assumir a administração das terras de sua amante, que foram arrendadas a Aontonio Nunes Leite, o Toninho Leite. Este, por sua vez, desejava continuar com as terras e já havia feito proposta à herdeira de Palmital do Córrego Novo, município de Malacacheta….
… o litígio pelas terras da Fazenda de Palmital começaram após a morte do pai da mulher…, José dos anjos. A herdeira, então, arrendou as terras para Toninho Leite. O contrato venceria 1º de agosto de 89, e, antes mesmo do vencimento, os tios da herdeira, Carlos Sálvio e Valdir Correa de Souza, conhecidos como Carlinhos, Salvino e Bedeu, manifestaram o o desejo de administrar as terras.
Os três filhos do fazendeiro Joaquim Correia de Souza, o Joaquim do Ó, que se relacionava com os irmãos Leite. Sabendo do interesse dos filhos de Joaquim do Ó, pelas terras de sua amante, Jó resolveu assassiná-los, como ficou apurado pela polícia. Geraldo Moreira Alves, irmão de Jó, e Gilson Moreira Alves, seu primo, mataram Carlinhos, Salvino e Bedeu em junho de 1989. Assim, um dos vértices do triângulo dos pretendentes às terras da herdeira de José dos Anjos, estava eliminado. Restavam ainda, contudo, Jó e Toninho Leite.

As Mortes do ex-soldado João Batista dos Santos e seu Filho de Sete anos.

Os acontecimentos que levaram ao assassinato de João Batista dos Santos e de seu filho, de apenas sete anos, crivados por balas disparadas pelos pistoleiros dos Leite em setembro de 1981, tiveram o início em maio do mesmo ano. Uma briga entre o vaqueiro Sebastião Pereira de Macedo, o “Zoca” e José Maria dos Santos, irmão do Soldado João Batista dos Santos, acabou com final trágico e a morte do oponente de “Zoca”. Após o assassinato, o pistoleiro buscou refúgio na fazenda dos irmãos Leite que ficaram sabendo que o militar teria prometido vingança. Os irmãos Leite já tinham uma rusga velada com o Soldado João Batista desde que Aldécio foi preso em Capelinha pela morte do Deputado Wander Campos e não recebeu tratamento diferenciado na prisão. Acharam o comportamento do militar inadmissível pelo preso ser um Nunes Leite. Segundo as investigações da época, Aldécio chamou “Zoca” e o incentivou a praticar o crime, alegando que “não se importariam se João Batista morresse”.

“José Rosa”, o conhecido “Tio Pedro”, pistoleiro que morava em Vila dos Anjos, cidade distante cerca de trinta quilômetros de Capelinha, foi contratado por Cr$ 40.000,00 (quarenta mil cruzeiros), dinheiro pago por Aldécio, para que auxiliasse “Zoca” na empreitada. A morte do ex-soldado foi planejada em uma das fazendas dos irmãos Leite, com a participação de Toninho, Aldécio, “Zoca” e “Tio Pedro”. “Zoca” alegou que faria o serviço de graça, pois João Batista lhe devia. “Toninho” arrumou o carro, um Volks, que seria utilizado para a fuga. No dia combinado, um sábado do mês de setembro de 1981, os dois foram para Capelinha à caça de João Batista, não encontrando dificuldades para encontrá-lo no interior de um bar, onde tranquilamente tomava uma bebida ao lado de seu filho, que tinha o mesmo nome do pai, “Joãozinho”, de apenas sete anos de idade. Os pistoleiros entraram furtivamente no recinto comercial e de armas em punho desferiram vários tiros em João Batista dos Santos, que caiu agonizando sem tempo da menor reação. Seu filho, uma pequena criança, ao ver seu pai baleado e esvaindo-se em sangue, no ímpeto inconsciente e inocente de um menino de sete anos, pulou sobre o corpo do pai na vã esperança de protegê-lo, sendo também abatido covardemente por uma saraivada de tiros. A criança morreu em cima do corpo de seu pai. Os bandidos fugiram em direção à Vila dos Anjos, capotando o Fusca próximo à Fazenda dos “Bianinhos”. “Tio Pedro”, muito machucado, foi abandonado por “Zoca” à beira da estrada, sendo posteriormente socorrido por pessoas do local que o levaram para a fazenda de Alírio Leite, em Jaguaritira, onde permaneceu por vários dias escondido.

Morte no Hospital

No dia 18 de julho de 1989, dois pistoleiros de confiança da família Nunes Leite, “Giramundo” e Albino estiveram na localidade denominada Palmital do Córrego Novo, em Malacacheta, onde desferiram vários tiros de revólver Taurus calibre 38, no vaqueiro Lafayete Nunes Pereira e seu patrão, o pistoleiro Joel Moreira Alves, vulgo “Jô”. Joel era pistoleiro dos Leite desde que “Sebastião do Arciso” o trouxe para a região. Comprou uma fazenda com dinheiro das empreitadas e a arrendava para os irmãos leite. Como os Leite tinham interesse em ficar com as terras, chamaram Joel para tratar da renovação do contrato de arrendamento e empreitaram Albino e Donizete Pereira dos Santos( Giramundo) para fazerem uma emboscada e matá-lo. Os pistoleiros aguardaram que Joel viesse ao encontro marcado com os irmãos Leite e desfecharam uma série de disparos contra Joel e seu empregado Lafayete. Mesmo baleados, Joel e seu acompanhante conseguiram fugir de seus algozes, procurando o hospital onde foram internados. As vítimas baleadas foram socorridas no Hospital São Vicente de Paula, em Poté, onde Joel ia ser submetido à cirurgia em razão dos ferimentos sofridos. Os mandantes do crime, Aldécio Nunes Leite e a viúva Geralda Moreira de Oliveira, a “Preta”, não se deram por satisfeitos e queriam “terminar o serviço”. O pistoleiro Carlos Roberto Santos, o “Carlinhos Pastor”, foi contratado para acabar a tarefa no hospital mesmo. Os irmãos Leite contrataram Israel, da fazenda Santa Cecília, para levantar o número do quarto onde estava Joel e deram um veículo Gol ao pistoleiro para completar a empreitada. “Carlinhos” chegou ao hospital se apresentando como policial, dizendo que estava investigando a tentativa de homicídio. Franqueada a entrada, o pistoleiro foi direto ao quarto, descarregando o seu revólver 38 em Joel que morreu fuzilado na própria cama do hospital, na frente de duas enfermeiras. Em vários crimes praticados por pistoleiros dos irmãos Leite, os criminosos se travestiram de policiais civis ou militares.

 

Jornal Diário da Tarde-21/1/1992 e 4/2/1992

Tocaia 

No dia 18 de julho de 89, Jó e seu vaqueiro Lafaiette Nunes Ferreira saíram da casa da herdeira por volta das 13:30 e disseram que iam até a fazenda Urupuca, de Toninho Leite, porque pretendiam vender algumas reses. Por volta das 14:00 horas eles foram tocaiados por dois pistoleiros, um deles reconhecido como sendo Albino, conhecido matador da família Nunes Leite. conforme apurações da polícia. Apesar de baleados com tiros de cartucheira, Jó e o vaqueiro não morreram e foram levados para o hospital de Malacacheta.

No dia seguinte,às 14:00 horas, quando começaram as visitas no Hospital São Vicente de Paula, um homem, dizendo-se detetive da Polícia Civil, entrou no hospital e foi direto ao quarto onde Jó recuperava-se do atentado que sofrera no dia anterior. O matador sacou seu revólver e disparou quatro vezes contra Jó em seu leito.

O Medo Termina

… o assassinato de Joel Moreira Alves ocorrido no interior do hospital de Malacacheta, no dia 19/7/1989.

Um dia antes, Joel fora baleado na localidade de Palmital do Córrego Novo, naquela região. Levado para o hospital, foi assassinado no dia seguinte, na cama. Audácia, dessa maneira, para a população, só podia ter um endereço: a família Nunes Leite que mandou matar sete pessoas da família Cordeiro de Andrade na Fazenda Canadá, em Jaguaritira, distrito de Malacacheta, além de inúmeros outros crimes de mando ocorridos na região e em outras cidades, como Santa Maria do Suaçui e Água Boa, conforme investigações da polícia.

No final da década de 80 os irmãos Nunes leite bancaram a campanha política de “Ozito” para a prefeitura de Água Boa e como era de se esperar, todos os que apoiavam venciam o pleito na base da coação, da força e da violência. No entanto o apoio para “Ozito” não foi gratuito e a partir do primeiro mês de mandato, Aldécio ou “Toninho” acompanhava o prefeito empossado, junto com seus pistoleiros, até a extinta Minas Caixa de Água Boa. Lá retirava o dinheiro da subvenção do município e entregava o total em espécie para os irmãos Leite. A transação era feita de tal modo explícita que o dinheiro era entregue dentro da própria agência, na presença dos funcionários e clientes.

Tentativa de assassinato de Acir Caldeira

Esse crime, contratado pelos irmãos Leite, tinha como vítima o fazendeiro Acir Caldeira, que foi baleado pelo pistoleiro Geraldo Mariano, preso após a tentativa que deixou a vítima cega, em razão das lesões provocadas pelos tiros. Geraldo Mariano conseguiu fugir e novamente preso em Ouro Preto do Oeste, no estado de Rondônia, município vizinho da cidade de Jaru, onde registraremos em páginas posteriores, o assassinato de Helvécio Cordeiro, também com participação da família Leite. Diversos crimes também são relatados na saga dessa família, com pouco ou nenhum histórico,  dentre dezenas de outros, que sequer foram identificados ou tiveram suas mortes relacionadas oficialmente à família Nunes Leite.

1990 – A Morte de Bino Monteiro

Segundo as investigações, a morte de Felisbino Monteiro da Silva se deu a mando de Aldécio e os pistoleiros contratados para o serviço foram João Inocêncio da Silva, o João “Bundão” e Donizete Pereira dos Santos, o “Giramundo”, com a cobertura de Adalto Nunes de Almeida, primo do mandante. Os pistoleiros apanharam as armas com Adalto na fazenda Santa Izabel, em Campanário e se dirigiram para Malacacheta em 13 de agosto de 1990 à procura de “Bino”. Os dois pistoleiros encontraram a vítima no centro da cidade, em um bar de Jaguaritira, município da comarca.  Os dois matadores posicionaram-se em uma estrada de terra, passagem obrigatória da vítima quando saísse do bar. João “Bundão” colocou um pano na cabeça para não ser reconhecido e fizeram sinal quando o Volks dirigido por “Bino Monteiro” surgiu na estrada. Desavisadamente a vítima parou o carro e foi surpreendida por vários tiros desferidos por “Giramundo” que matou “Bino” e ainda atingiu a mulher Mônica Luiza de Souza, que o acompanhava. “Giramundo” usava dois revólveres calibre 38. Posteriormente, o antigo vaqueiro da família Leite, José Elias Abrantes de Sales, conhecido por “Zé Guaxe” resolveu denunciar os Leite, informando à Polícia e à Justiça, com riqueza de detalhes, vários dos crimes e barbaridades cometidos pela família Nunes Leite em Malacacheta e região. Dentre os crimes denunciados estaria o assassinato de “Bino” Monteiro, que teria sido encomendado pelos irmãos Leite, porque a vítima era suspeita de aliar-se aos Cordeiros para matá-los. Após o crime os pistoleiros se refugiaram na fazenda Santa Isabel, onde receberam o pagamento deixado por Aldécio com Adalto e levados para o Espírito Santo.

Jornal Estado de Minas. 1/9/1993

Pistoleiros Confessam vários Crimes.

A mando de Alírio Nunes Leite, Aldécio Nunes Leite e sua mulher Nilma, os pistoleiros “Giramundo” e João Inocêncio da Silva, o “João Bundão” mataram Bino Monteiro e depois retornaram para a Fazenda Santa Cecília, lá eles foram pagos por Adalto que recolheu os revólveres utilizados no atentado, para ocultá-los e os ajudou a fugir, levando-os para a divisa com o Espírito Santo.”

      

 III Capítulo. A Chacina de Malacacheta.

Os irmãos Nunes Leite: Alírio, José, Aldécio, Antonio e Aldeci

Para descrevermos a fatídica chacina e suas consequências, que culminou com o desmantelamento da família Leite, a morte de “Toninho Leite”, de Lennon, de Helvécio, Humberto e Dario Rodrigues/Cordeiro e a prisão de seus principais membros e pistoleiros vamos buscar as origens desse sanguinário episódio. Através de capítulos descrevemos toda a trajetória até o fatídico dia da tragédia que abalou Minas e mudou o rumo da pistolagem em nosso estado. Os irmãos Leite nunca tiveram limites para os seus crimes e a impunidade e a proteção de autoridades e pessoas influentes sempre foi um estímulo para as suas atrocidades.

Tentando sempre buscar a neutralidade em relação às pessoas daquela região, que, de alguma forma se envolveram ou tinham vínculo com as vítimas e criminosos, e os fatos históricos, cabe registrar que anos antes da chacina, a família Rodrigues ligada aos Cordeiro Andrade e Sexto, tiveram um ente assassinado em Jaguaritira. Era Dario Rodrigues, tio-avô de “Paulinho Maloca” e compadre de Helvécio Sexto. Dario foi assassinado por uma família, coincidentemente, conhecida por “Os Leite Preto”. Este crime, assim como muitos outros na região, teve seu desdobramento com a “vendeta” por parte dos familiares Djalma, Ajax e Licínio, os irmãos Rodrigues, que exterminaram a família dos assassinos. Nessa peleja, Djalma Rodrigues também tombou crivado por balas.

Outro Dario Rodrigues, que será registrado em artigo posterior, como sendo a pessoa que ajudou na prisão de Aldécio Leite no Pará, era filho deste Dario assassinado e também morreria tragicamente em 1995, por tiros de pistoleiros naquele estado.

A Prisão dos Militares no Banheiro do Ginásio em Malacacheta

No dia 17 de julho de 1988, por volta de 1:30 da madrugada, Helvécio Alexandrino Augusto Cordeiro (assassinado em JARU-RO), Nacip Augusto Cordeiro (vítima da chacina de Malacacheta), José Sexto Neto (vítima da chacina) José Carlos Augusto Couy e Rogério de Souza Couy (indiciados na chacina) armados de revólveres e punhal dominaram o Cabo PM Chuber Geraldo Mendes, os soldados Sebastião Amaro Sobrinho e Ronaldo Francisco Ferreira (os dois soldados estavam fardados) tiraram suas armas dos coldres e os trancaram no banheiro do ginásio onde era realizada uma festa. Na denúncia oferecida pelo promotor, Marco Antônio de Souza registra que:

“no transcorrer da festa houve uma discussão entre Nacip e Sebastião Ramalho, quando foram chamados os militares Ronaldo e Sebastião Amaro para resolverem o caso. Entretanto a presença dos policiais não foi bem aceita por Nacip, que juntamente com seu irmão José Sexto, que naquela ocasião estava armado com um punhal, passaram a ameaçar tais policiais. Nesse ínterim interveio Helvécio, que armado com dois revólveres, um de sua propriedade e outro de Rogério Couy, também ameaçava as vítimas. Enquanto isso Nacip, José Sexto e José Carlos aproveitando que as vítimas estavam intimidadas arrebataram dos coldres destas as suas respectivas armas, delas também fazendo uso para constrangerem as vítimas. Apurou-se que os denunciados, após terem desacatado as vítimas fardadas, se rebelaram também contra outros dois policiais que ali se encontravam, desacatou-os e em seguida obrigou a todos a entrarem no banheiro, onde foram trancados”.

No relatório do 2º Tenente que presidiu a sindicância militar. consta os seguintes registros:

O ambiente da escola (ginásio) estava carregado, seja em razão de uma briga ocorrida por volta das 22:00 horas, seja pela presença de inúmeras pessoas armadas com revólveres, como sói acontecer em todas as festas da cidade, ruas, bares, campos de futebol, etc…”.

O relatório descreve com grande clareza o clima de intranquilidade e impunidade, onde a população vivia como se estivesse nas décadas de 40 e 50, o coronelismo e a lei do mais forte imperava.

“O cabo Coutinho, de arma em punho, foi obrigado a baixar seu revólver diante das três armas, sob a liderança de Helvécio, que ameaçava atirar nos PM’s. Helvécio ordenou, então, que todos entrassem no banheiro. Assim, com os quatro PM’s dentro do banheiro, os agentes evadiram-se, disparando suas armas para cima, sob a vista de aproximadamente 50 pessoas que se encontravam na festa. Os PM’s permaneceram por uns trinta minutos dentro do banheiro após a saída dos agentes, mesmo não estando a porta trancada. O Cabo Chuber entrou em contato comigo, onde percebi sua embriagues. Tivemos ciência que José Aguimar, filho do vereador e Altemar Cordeiro estavam próximos ao posto de gasolina da cidade e efetuamos a prisão de um e apreensão do outro, visto tratar-se de menor. Contatamos com o Delegado de carreira Adeuvaldo Ribeiro Neves, que de imediato adotou providências para a lavratura do flagrante, infelizmente, constatamos depois que não passava de uma figuração, pois na audição de testemunhas, o delegado deixava inúmeras lacunas e obscuridade, de certo, para facilitar as coisas, e sobretudo, com cristalinas evidências de comprometimento com o vereador, pai do indiciado. Durante o desenrolar dos fatos, o Soldado Ramalho, da 47ª Cia PM ouviu o Cabo Chuber dizer ao vereador:

“Eu não tenho nada com isto, estes PMs são de Teófilo Otoni”, querendo com isto, ficar bem, com o lobo e o cordeiro, ao mesmo tempo.

As conclusões do militar mostravam o descaso das administrações estaduais e municipais com relação a questão de segurança pública:

“A cidade está sem juiz de direito e promotor. O delegado é inoperante. O prefeito, o que menos quer saber é de segurança pública. O destacamento está sem viatura. A prefeitura nunca forneceu 1 litro de gasolina. Na cidade anda-se armado sem ser admoestado. A média de homicídios é elevadíssima. A certeza da impunidade parece ter se sedimentado. Há uma ano um PM foi morto na região”.

No seu parecer, o oficial pede o enquadramento disciplinar dos militares envolvidos no episódio. Iniciava ali, um clima de descontentamento dos irmãos Nunes Leite com a família Cordeiro, tendo em vista a amizade que nutriam com alguns militares e também pela fama adquirida pelos Cordeiros Andrade no episódio. A versão dada pelos Cordeiro envolvidos foi a de que um dos soldados, totalmente embriagado, “passou a mão” nas nádegas da esposa de um deles e ao reagirem os demais militares tomaram as dores do companheiro. Pouco tempo depois, mais precisamente no dia 20 de março de 1989, os Cordeiro se envolviam novamente em confusão e crime, dessa vez, José Augusto Andrade, Nacip Augusto Cordeiro de Praga e José Sexto Neto foram acusados de matar João Mendes, conhecido como “João Peixe” em Malacacheta, zona rural. Geraldo Augusto Cordeiro também teve envolvimento em crime, tendo como vítima um homem conhecido por “Manoelzinho” Viana.

Origem dos Atritos

 “Numa manhã chuvosa, um rapaz de nome José Augusto Sexto Neto, o “Zé Sextinho”, um dos caçulas da família Sexto Andrade, o qual todos os dias transportava leite de suas fazendas e de outros fazendeiros da região em um caminhão F-4000 para o laticínio da cidade, parou na Avenida Pedro Abrantes, em frente à agencia do BEMGE, para que várias pessoas idosas trazidas da roça por ele, pudessem descer. Foi quando surgiu Antonio Nunes leite, o Toninho Leite, dirigindo uma caminhonete, parando atrás da F-4000, e buzinando acintosamente para que ele pudesse passar…

Toninho teria elevado mais o tom dos xingamentos e ameaçado “Zé Sextinho”, o qual, instintivamente teria levado a mão ao cabo do revólver que estava em sua cintura, dizendo que não tinha medo dele. Toninho então, teria dito a “Zé Sextinho”:

Depois veremos…

Naquele momento, todos que assistiram aquela cena sabiam que ali estava selado o destino daquele jovem.”

Trecho extraído do livro “Só os Fortes Sobrevivem” de Paulinho “Maloca”.

O primeiro fato que gerou uma insatisfação explícita por parte dos irmãos Leite contra membros da família Cordeiro ocorreu menos de trinta dias antes da fatídica data da chacina, em 17/12/89, quando Toninho Leite foi destratado e desmoralizado por José Sexto Neto (Zé Sextinho) ao trafegar em uma estrada com apenas meia pista no centro de Água Boa. Toninho buzinou seu veículo e “Zé Sextinho” falou que “se era o dono do mundo passasse por cima”. Era o tipo de desaforo que os irmãos Leite não levavam para casa, principalmente porque a discussão teve ampla divulgação na região. Não se passou uma semana, os irmãos reuniram-se e decretaram que “Zé Sextinho” deveria morrer. Instruíram o pistoleiro Albino Alves Pereira a ir até a venda de “Zé Sextinho” e matá-lo, de maneira que o crime não parecesse premeditado.

“A tática usada por Albino era provocar confusão, para parecer crime momentâneo, forma de livrar a responsabilidade do mandante”( promotor Elias Paulo Cordeiro).

Tal procedimento era muito próprio dos irmãos Leite que se safaram de inúmeros crimes utilizando essa estratégia ou artimanha. Só não esperavam o resultado que viria. Albino, no dia 24/12/89, véspera de natal, foi à venda de “Zé Sextinho” e começou a provocá-lo José “Sextinho” ofereceu um copo de vinho para Albino, em tom cordial, pois sabia que o pistoleiro estava ali a mando dos Leite. Albino rispidamente falou:

Isto não é bebida de homem, bebida de homem é cachaça”

Colocando uma garrucha 380 em cima do balcão, Albino desafiou “Sextinho” a sacar sua arma. E falou:

Essa garrucha tá sem bala,mais o revórve tá cheio”, colocando a mão na cintura.

Geraldo Augusto Cordeiro, tio de José Sexto Neto, que se encontrava na venda com Nacip Augusto Cordeiro, viu que ele tinha outra arma, foi mais rápido e gritou:

“Intão rancu seu qui o meu já tá na mão”.

Albino ainda tentou sacar sua arma, mas tomou balaços antes que acertasse o alvo pretendido. Albino, alvejado, cambaleou para fora do comércio e desapareceu na capoeira próxima do local, tendo ainda conseguido correr por cerca de cem metros. José “Sextinho” chegou a comentar que haviam ferido uma cobra, achando que Albino não tinha morrido. No outro dia, “Joãozinho”, um empregado da fazenda Canadá, saiu com seus dois cachorros para separar bezerros quando os cães localizaram o corpo em um brejo. A venda do José Sexto ficava próxima à Fazenda Canadá, onde ocorreu a chacina, distante cerca de três quilômetros do distrito de Jaquaritira, em uma estrada que liga a localidade de Bonfim. A morte de Albino atingiu frontalmente o ego dos irmãos Leite que começaram os preparativos para a vingança.

Iam matar todos os “balainhos”, termo que usavam para menosprezar alguém, aproveitando-se do episódio recente entre os Cordeiro e policiais militares que foram presos em um banheiro de ginásio, numa festa em Malacacheta”. Albino é como uma gota d’água no oceano, quase um zero à esquerda, mas que, na somatória, foi aquele pingo que transbordou. O que estava em jogo, isso sim, era o prestígio. Havia um desafio. Alguém gritou com “Toninho” na rua. Mandou ele passar com o carro por cima e ele não passou. Ficou mal. Pegou muito mal. Daqui a pouco outro poderia repetir a façanha, e mais outro, e os Leite estariam liquidados. Acabar-se-ia quase uma lenda, e, para que isso não ocorresse, teria que haver um revide, uma lição para ninguém esquecer” (trecho do relatório do delegado Otto Teixeira Filho, responsável pela investigação).

Toninho Leite ao saber da morte de Albino bradou:

“Da família Sexto não vai sobrar nem os balaios, nóis vai matar todo mundo, até as crianças qui tivé mamando”.
João Ferreira Luz, após a morte de Albino encontrou com “Preta”, esposa do pistoleiro que lhe disse que “não precisava temer pelos filhos dela, mas que a morte de Albino tinha quem iria vingar e quem vingaria seria o Carlão”. Que ouviu, antes da morte de Albino, um recado enviado para ele de Carlão, “alegando que iria se apresentar em uma delegacia da região pela morte de uma pessoa na lavra e se Carlão ficasse preso iriam até trocar tiros com a polícia para soltá-lo”. Após receber a informação, Albino e Izael apanharam armas, munições e saíram em duas motos na companhia dos homens que trouxeram o recado.

“Albino era pistoleiro dos Leite por ter ele matado muita gente e que sempre que aparecia um morto ele corria para a fazenda dos Leite e de lá sumia para o Pará”.

Preparação

Os irmãos Leite tinham amizade com vários pistoleiros do garimpo da cidade de Nova Era e alguns já tinham prestado serviço de “quebra-milho” para eles. Hamilton Leite Costa, vulgo “Carlão”, gerente e sócio do garimpo, jurara vingança a morte de Albino, seu amigo pessoal. Ofenir Pinheiro, licenciado à época como Detetive da Polícia Civil, prestava segurança no garimpo e era pessoa da mais alta confiança da família Leite (compadre de Aldécio), tendo participado do episódio da morte de Joel no hospital. Aproveitando-se das circunstâncias que lhe pareciam favoráveis, Aldécio Nunes Leite e Antônio Nunes Leite (Toninho Leite) estiveram no garimpo de Nova Era onde se reuniram com “Carlão” e traçaram planos para a a carnificina. Após as reuniões com os irmãos Leite, segundo “Gilberto Cabelo Seco”, Carlão o chamou e também Ofenir, Fabinho, João Soldado e Ademir para a consumação do crime, oferecendo a quantia de CR$ 500.00,00 (quinhentos mil cruzeiros) pela empreitada. Fabinho esteve hospedado na fazenda dos irmãos Leite antes da chacina, a fim de fazer o levantamento do local e das pessoas a serem assassinadas. A audácia dos irmãos Leite era tamanha que Rogério Couy, conhecido como “leva e trás” da família, esteve com Fábio Elias na residência de Helvécio Cordeiro e o identificou como sendo policial de Belo Horizonte. Realizados os levantamentos, Carlão providenciou coletes da Polícia Civil, já que não conseguiram as fardas da Polícia Militar (a pretensão era que pensassem serem militares os autores), as armas: escopetas calibre 12 de repetição, pistola 9 mm HK, pistolas 7,65 e revólveres calibre 38, além dos dois veículos utilizados: um Gol de cor branca e um Santana de cor verde. Estavam prontos para trucidarem, a família Cordeiro. Poucos dias antes da consumação da chacina, mais precisamente na passagem de ano de 1989/1990, Ely Barbosa Couy, após se embriagar, chorando compulsivamente, falou para Helvécio Cordeiro:

“Vocês todos vão morrer”.

Também, na mesma época, Noélia Santana Couy, casada com “Toninho” Leite, alertou seu cunhado Helvécio para “não deixar suas filhas andarem no carro de José Andrade e se os filhos dele (José Andrade) fossem mortos não deveria fazer nada”.

O vereador Humberto Cordeiro, Dario Cordeiro e Helvécio Cordeiro procuraram Aldécio leite para tirar satisfação sobre as ameaças. Aldécio foi incisivo em negar as ameaças, dizendo para ficarem tranquilos, que tudo não passava de boataria de gente “sem tê o que fazê”. Disse que ia conversar com “Toninho” Leite para acabar de vez com aquela conversa fiada. Mal sabiam os três integrantes da família Cordeiro, que dali a poucos dias, sete Cordeiros seriam barbaramente assassinados e posteriormente a pistolagem dos Leite mataria Helvécio em Jaru-Rondônia, Humberto através de sequestro e tortura e Dario em Ulianópolis, no Pará. Os irmãos Leite, por sua vez, também desconheciam que os desdobramentos da chacina traria baixas para a família, as morte de “Toninho” e “Leno”, filho de Aldécio.

A Carnificina

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No dia 15 de janeiro de 1990, por volta de 0:00 horas “Carlão” saiu de sua casa, onde já estavam Ofenir e Fabinho e foram para o posto Nova Era, onde se encontrou com Gilberto “Cabelo Seco”, “Bacuri”, Antônio Augusto, Sargento Edésio e “Carlinhos”. (Há uma controvérsia nos depoimentos e declarações em relação aos três últimos participantes). No veículo avermelhado ia Antônio Augusto dirigindo, Edésio ao seu lado e “Carlinhos” no banco traseiro. No veículo Gol, “Cabelo Seco” era o motorista, “Fabinho” ao seu lado e no banco traseiro Ofenir e “Bacuri”. A caravana da morte pegou uma estrada de terra passando por Piçarrão, que liga Nova Era a Santa Maria de Itabira. De lá foram por Guanhães, São João Evangelista, Santa Maria do Suaçuí, Água Boa, entrando pela estrada de Vila dos Anjos (cidade entre Malacacheta e Capelinha), passaram pelo distrito de Jaguaritira, parando os veículos antes do local. “Fabinho” abriu o porta-malas do Gol e retirou os coletes da Polícia Civil que foram utilizados por “Cabelo Seco”, Ofenir, “Bacuri” e “Carlinhos”. “Fabinho” colocou o colete de Delegado de Polícia. Antônio Augusto e Edésio, talvez por serem militares, recusaram o uso dos coletes. Naquele momento o armamento foi distribuído e as munições foram entregues por “Fabinho”. Preparados, seguiram novamente com os carros até a porteira da fazenda onde seguiram a pé, passando pela menina Maria Luíza Cordeiro, com 10 anos à época que estava indo para a escola.

Fazenda Canadá, Distrito de Jaguaritira-  Malacacheta, palco da famigerada chacina que vitimou grande parte da família Cordeiro.


Aldécio Leite que estava dirigindo seu jipe, estacionou próximo da fazenda dos Cordeiro, na curva da estrada que tem uma amoreira, junto com Israel, Rogério Couy e Eli Couy. Ali aguardariam para o caso de alguém da família Cordeiro escapar, ser morto por eles. Os criminosos, ao chegarem à sede da Fazenda Canadá (foto acima) foram recebidos por Eunice Augusta Cordeiro de Andrade, quando se identificaram como policiais, argumentando que estavam em diligência para apurar a morte do pistoleiro Albino Alves Pereira. Dona “Nicinha”, como era conhecida, convidou seus algozes a entrarem e demonstrando a boa hospitalidade do mineiro naquela região, preparou café com leite e queijo para eles. Na casa já se encontravam seu marido José Augusto de Andrade e seus filhos Nacip Augusto Cordeiro de Praga, José Sexto neto e Núbia Florípes de Andrade. Os irmãos Leite haviam preparado uma lista das pessoas a serem assassinadas e duas delas não se encontravam no local. Utilizando-se de um Jipe da fazenda, dois dos pistoleiros foram até a casa de José Augusto Cordeiro e depois na de Geraldo Augusto Cordeiro, conduzindo-os para a fazenda Canadá, onde as outras cinco vítimas os aguardavam, servindo café e queijo aos demais pistoleiros.  Geraldo, desconfiado, questionou:

“Vocês não são polícia não, me mostra a carteira”.

Fabinho ordenou: “Vamos começar”, dando início a fuzilaria. A matança não durou mais que alguns poucos minutos.

“Gilberto Cabelo Seco” deu cinco tiros de calibre 12 em Eunice que caiu morta, emborcada atrás de um vaso sanitário, na luta vã para escapar dos tiros. Ofenir efetuou o disparo contra José Augusto de Andrade. Os demais pistoleiros continuaram a matança, baleando mortalmente Núbia e Nacip que já estavam do lado de fora da casa no desespero para se salvarem. “Gilberto Cabelo Seco” e “Carlão”, percebendo que faltava “Zé Sextinho” foram ao quarto e o acharam debaixo da cama, ironizando o rapaz antes de matá-lo:

“Você não é macho e gosta de encarar? Agora tá se borrando todo?”.

O pistoleiro manejou sua escopeta calibre 12 de repetição e “Sextinho” no instinto de defesa colocou as mãos sobre o rosto, recebendo o impacto de três disparos que lhe atingiram a cabeça, o tórax e um dos braços, causando a morte instantânea. Simultaneamente as demais vítimas foram sendo abatidas impiedosamente.

Quase que por milagre, Vilma Rodrigues Leal de Praga, esposa de Nacip e Dinamar de Paula com seu filho de colo conseguiram pular janelas e afastaram-se correndo daquele local, sobrevivendo à tragédia. José Augusto Cordeiro foi assassinado na cozinha, Nacip e Núbia, ao tentarem fugir para o terreiro, José Sexto debaixo da cama, Eunice e Geraldo foram mortos dentro do banheiro e José Augusto Andrade na sala. Núbia tomou o primeiro tiro na barriga, caindo ao tentar fugir pelo terreiro, quando tomou o tiro de misericórdia no ouvido. Geraldo Augusto Cordeiro e José Augusto Andrade receberam tiros na cabeça. Nacip foi agredido com uma coronhada de escopeta e em seguida recebeu um disparo de calibre 12 no ombro direito. Eunice foi morta com quatro tiros.Ao saírem da fazenda, os pistoleiros se dirigiram para o garimpo de Nova Era, tendo “Gilberto Cabelo Seco” perfurado os pneus do Jipe com vários tiros, antes da retirada.

Da esquerda para direita: José Augusto de Andrade, Eunice Augusta Cordeiro de Andrade, José Augusto Cordeiro, Nacip Augusto Cordeiro de Praga, José Sexto neto e Núbia Florípes, assassinados na Chacina de Malacacheta. Humberto Cordeiro e Helvécio Cordeiro, perseguidos e mortos em Belo Horizonte-MG e Jarú-Rondônia após a chacina.

Existem pontos contraditórios que não foram sanados em relação aos autores da chacina e os veículos utilizados. “Gilberto Cabelo Seco” afirmou para o delegado Faria que, junto com ele participaram “Carlão”, “Fabinho”, Ofenir e ainda Ademir e “João Soldado”, utilizando os veículos Gol branco e um Santana de cor verde. Na sua versão, “Carlão” era o falso delegado. Ofenir, em seu depoimento ao Delegado Otto Teixeira, afirmou que “Carlão” só teve participação na organização, preparação e logística (armas, munições, veículos e coletes) e que na chacina estavam em sua companhia, “Gilberto Cabelo Seco”, “Fabinho”, “Bacuri” (do garimpo) vindo de Governador Valadares para reforço, Antônio Augusto, “Sargento Edésio” e “Carlinhos”, tendo utilizado um veículo Gol branco e outro carro de cor avermelhada. Após os crimes, os irmãos Leite colocaram os pistoleiros Joel Moreira Alves, do estado do Espírito Santo, às margens da estrada que dava acesso à fazenda para os protegerem de alguma represália

Toninho falou na ocasião:

“Temo qui tá preparado, purque a famía dos Cordero tombô toda”.

Fazenda Canadá, a multidão e os corpos dentro de caixões em uma carroceria. Fotos arquivo TV Alterosa.

A mecânica dos acontecimentos durante o crime coincide com as afirmações de Gilberto e Ofenir. Posteriormente, Ofenir falou informalmente ao Delegado Faria, que na realidade os participantes eram outros, apresentando uma outra versão onde nominava “João Moura”, “Fernandão” e uma terceira pessoa, contratados em Vassouras, RJ, que substituíram “Antônio Augusto”, “Sargento Edésio” e “Carlinhos”. Não se entende o porque de terem assumido o crime, a autoria ter sido cabalmente comprovada e desviarem a atenção através de contradições em relação aos pistoleiros que não eram do garimpo de Nova Era.

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Livro “Só os Fortes Sobrevivem” e entrevista a TV sobre a Chacina e a guerra declarada.
A chacina segundo Paulo “Maloca”.

Em 2008, o detetive “Paulo Maloca”, de Governador Valadares, que tem ramificação na família Cordeiro de Andrade, escreveu o livro “Só os Fortes Sobrevivem”, onde, na contra capa, registra a cronologia e circunstâncias macabras da chacina:

GERALDO AUGUSTO SEXTO COM A CANECA DE CAFÉ NA MÃO, de pé, próximo ao fogão de lenha da fazenda, por algum motivo que ninguém vai saber, desconfiou que havia algo errado naquela situação, e pediu para o pistoleiro que se apresentava como delegado, que lhes mostrasse sua carteira de autoridade. Foi quando de pronto recebeu um tiro de escopeta calibre 12 no rosto, efetuado covardemente por um dos integrantes do bando, caindo morto em cima do fogão de lenha. Começara assim a chacina de Malacacheta…

            JOSÉ ANDRADE TENTOU CORRER e, antes mesmo que conseguisse sair pela porta, recebeu o segundo tiro de escopeta em suas costas!

          NÚBIA SEXTO ANDRADE GRITOU DESESPERADAMENTE pedindo piedade, por estar grávida! Mas foi metralhada! Logo ela que chegara um dia antes à fazenda apenas para visitar seus pais. Ela morava em Belo Horizonte, onde estudava e tinha se formado recentemente no curso de Farmácia.

NACIP SEXTO ANDRADE CONSEGUIRA CORRER POR ALGUNS METROS até o terreiro da fazenda, onde recebeu um tiro de fuzil na nuca, arrancando-lhe metade do crânio!

            JOSÉ AUGUSTO SEXTO E SUA IRMÃ EUNICE CONSEGUIRAM SE REFUGIAR dentro de um banheiro da fazenda. Em uma última tentativa desesperada, José Augusto Sexto tentou, com as duas mãos, manter a porta fechada. Foi quando um dos integrantes do grupo de assassinos atirou com a escopeta contra a porta quebrando-lhe as duas mãos para, em seguida, novamente atirar em seu rosto que ficou completamente deformado! Sua irmão Eunice foi executada com vários disparos de armas de fogo de diversos calibres, morrendo ajoelhada, abraçada ao irmão.

           E POR ÚLTIMO O ALVO MAIOR DE TONINHO LEITE! JOSÉ AUGUSTO SEXTO NETO, o Zé Sextinho! Praticamente um menino de 18 anos, que um dia ousara responder aos abusos de Toninho Leite, não se subjugando aos mandos e desmandos dos fascínoras Irmãos Leite. Morreu com o rosto totalmente desfigurado de tantos tiros! Ao todo, supostamente, 18 disparos de arma de fogo. 

            SOBREVIVEU APENAS WILMA LEAL, esposa de Nacipi Sexto, que conseguira fugir por uma das janelas da fazenda, levando consigo sua filha Raíza de apenas três meses! Como por um milagre! Talvez, sobrevivendo para contar parte  dessa história!

             Estava consumada aquela que se tornou a maior chacina da história do interior do estado de Minas Gerais…”

          

IV Capítulo

O Êxodo da Família Cordeiro e os Novos Assassinatos.

Dentre os fatos marcantes que surgiram posteriormente à chacina, destacamos o desaparecimento de Maria Aparecida Machado, esposa de Ofenir Pinheiro, policial partícipe na execução dos assassinatos, incidente entre Ofenir e “Paulo Maloca”, quando o segundo, detetive da Delegacia Regional de Valadares desferiu tiro de escopeta que atingiu Ofenir. Atentado contra o policial Paulo “Maloca”, que tem laços consanguíneos com a família chacinada, novo atentado à Fazenda Canadá, morte de Toninho Leite, assassinado em uma emboscada. A fuga dos sobreviventes e as mortes de Humberto e Helvécio Cordeiro a mando dos Irmãos Leite.

O restante da família Cordeiro Andrade abandonou suas terras na região do Vale do Mucuri e fugiram para várias partes do país, temendo por suas vidas. Dario Cordeiro foi para Ulianópolis no Pará, Helvécio Cordeiro mudou-se para Jaru, em Rondônia.

O Desaparecimento de Maria Aparecida Machado

Jornal Hoje em Dia – 10/4/1992

Mistério

Mulher de policial acusado de chacina desaparece em pleno Centro. Nalu Saad

Governador Valadares

“…

A polícia acredita que o sumiço de Maria Aparecida pode estar ligado com as brigas entre as famílias Augusto Sexto de Andrade e Leite, na região de Malacacheta e Santa maria do Suaçui. Essa suspeita está ligada ao fato de o marido dela ser apontado como um dos participantes da chacina de sete membros da família Sexto Andrade em 16 de fevereiro de 1990, no distrito de Jaguaritira. Os mandantes seriam os Leite. Na época, Maria Aparecida foi envolvida no caso por suspeita de ter ajudado a confeccionar os coletes da Polícia Civil, com os quais estavam vestidos os seis homens que executaram a família”.

O sequestro e morte de Humberto Cordeiro.

Humberto Cordeiro transferiu residência para Belo Horizonte, instalando-se no Bairro Industrial, em Contagem. Todos levaram seus familiares. Ocorre que o ódio dos irmãos Leite e a sede de sangue e vingança, aliados a certeza da impunidade não limitavam seus crimes às cercanias de Malacacheta e Capelinha, não poupando recursos financeiros para prosseguirem com seu objetivo: exterminar a família Cordeiro Andrade.

Em tese, o vereador foi o mentor do atrito com os irmãos Leite e se mudou para Belo Horizonte na busca vã de se proteger dos tentáculos  sanguinários dos algozes de sua família. Humberto Augusto Cordeiro vivia uma rotina calma e aparentemente tranquila, quando no dia 20 de junho de 1990, por volta das 10:00 horas, ao sair de um açougue nas proximidades de sua residência, foi abordado por quatro homens armados que ocupavam um veículo Santana, de cor clara, com vidros escuros. Dominado pelos indivíduos, Humberto foi jogado dentro do carro e nunca mais foi visto. Durante as investigações e depoimentos colhidos, apurou-se que no dia anterior ao seu desaparecimento, “coincidentemente” encontrou-se em um bar da capital com José Américo Abrantes (Zé Américo), Olinto Lopes Pinto e Rogato Quadros, todos de Malacacheta (o primeiro estava em companhia de Toninho Leite quando foi assassinado). Naquela mesma data, Adelson Leite, Alírio Nunes Leite e José Leite estavam em Belo Horizonte.

Durante o período que Humberto permaneceu com os três homens, comentou que no dia seguinte pela manhã iria levar sua sobrinha ao médico.

Consta na denúncia do Ministério Público que:

“Zé Américo” foi para o local denominado “Urupuca”, em Malacacheta, onde se encontrou com Aldécio em uma de suas fazendas, informando-lhe (“o homem vem aí atrás”) que Humberto estava vindo atrás, em um gol com João Delfino. Humberto foi entregue aos irmãos Leite e durante sete dias foi torturado, tendo os olhos vazados, suas pernas quebradas, extirparam-lhe o pênis, foi pendurado de cabeça para baixo, cortado pouco a pouco, depois encharcado com gasolina foi queimado. Participaram da tortura, além dos irmãos Leite, Eli de “Carrim”, “Zé Américo”, “Giramundo” e João Delfino. Após todas as agressões, vários tipos foram disparados contra Humberto Cordeiro”.

Foram denunciados por formação de quadrilha, seqüestro, homicídio qualificado e ocultação ou destruição de cadáver: Aldécio Nunes Leite, Alírio Nunes Leite, José Nunes Leite, Alírio Nunes Leite, José Nunes Leite, Adelci Nunes Leite, Eliane Aparecida Couy, Eli Barbosa Couy, José Américo de Sales Abrantes, João Delfino e Donizete Pereira dos Santos (Giramundo).

Reportagens Jornais Estado de Minas e Hoje em Dia.

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Uma carta foi remetida anonimamente e juntada ao processo contra irmãos Leite pela morte de  Humberto, contando o requinte de crueldade utilizado para matar lentamente o ex-vereador, como era próprio dos Leite.

Trecho da carta:
“quero di dar uma dica como foi a morte de seu pai, ele foi sequestrado por Zé Américo, Ele Giramundo e mais outros pistoleiros e foi levado para fazenda que pertence a Noélia e lá furaram os dois olhos dele, capô, jogou gasolina na cacunda e pôs fogo e ele estava ainda vivo, aí colocou dentro do saco e deu duas facadas uma na garganta e uma na barriga e ele continuô vivo, eles pegaram ele dentro do saco e jogou dentro do rio. Zé Américo ganhou um boi preto para fazer este serviço e já vendeu o boi”.

O assassinato Helvécio Cordeiro

Depois dos assassinatos  de diversos membros da família Cordeiro Andrade e os diversos incidentes que indicavam novos atentados, conforme registrado, os sobreviventes se afastaram do Vale do Mucuri, buscando refúgio nos rincões de nosso país, principalmente em Rondônia e Pará, pensando, que com a fuga, estariam livres da ira dos irmãos leite. A reportagem intitulada “Grupo cerca fazenda dos Cordeiro”, de 25 de fevereiro de 1992, do Jornal Hoje, registra de forma clara as novas ameaças e possibilidades de uma nova chacina. As garras criminosas da família Leite tinham um longo alcance e a exemplo do restante da família Juca Peão, trucidada por pistoleiros em Imperatriz do Maranhão, eles não se contentaram em matar “apenas” sete da família Cordeiro, mandando um pistoleiro para Jarú/Rondônia, que assassinou Helvécio Cordeiro, no final de 1992.

As Fazendas das Vítimas

A família Nunes Leite não se deu por satisfeita em assassinar os nove membros da família cordeiro, precisando saciar ainda a sede pelas terras de suas vítimas, começando logo após os assassinatos a conclusão de seus planos. A polícia Militar, na ocasião dos fatos, fez uma investigação velada e apurou que todas as terras dos Cordeiros chacinados passaram indiretamente a ser controladas pelos seus algozes. A fazenda Canadá, palco da chacina, com seus sessenta alqueires, duzentos e quatorze cabeça de gado, sete cavalos, inúmeras cabeças de aves e porcos e uma produção de dez queijos ao dia, passou a ser gerenciada por José Augusto Belfort, ligado aos Leite. A fazenda Jaguaritira, de José Cordeiro, o “Zé Sexto”, com trinta alqueires, quarenta e quatro cabeças de gado, seis cavalos, muitas aves e cerca de cem litros de leite ao dia, passou a ser gerenciada por Geraldo Martins, que seria parente dos irmãos Leite. A fazenda União, de Helvécio Cordeiro, vítima do sequestro e morte, com setenta alqueires, vinte e cinco reses, porcos e cavalos passou a ser gerenciada por João Mendes dos Santos, genro de Eli Couy, indiciado e denunciado como intermediário da chacina. Fazenda San Diego, cujo proprietário era Geraldo Cordeiro, o “Lado Sexto”, possuía sessenta e oito alqueires, cento e quarenta e oito reses, dezesseis cavalos e burros. Também haviam vinte e dois porcos e várias aves, passando a ser explorada por Odilon Alves Arantes, sem o devido inventário. O major encarregado do dossiê foi mais além em suas conclusões ao afirmar:

“Em análise ao modus operandi dos Leite e o estágio atual de exploração das propriedades rurais de suas vítimas, concluímos que os crimes se deram não só por desentendimento entre as famílias litigantes, mas também com fins lucrativos, caracterizando-se no nosso entendimento, o latrocínio”.

A Busca da Verdade

Apesar de perseguida por todos os cantos, os remanescentes da família Cordeiro encontraram forças para tentar legalmente acabar com os desmandos da família Leite no vale do Mucuri e responsabilizá-los pelos covardes assassinatos. Cartas foram mandadas para todas as autoridades possíveis de serem acionadas e uma, surtiu um efeito devastador para os irmãos Leite: a correspondência dirigida ao Presidente da República, à época, Fernando Collor de Mello. O Presidente determinou ao seu Ministro da Justiça, Bernardo Cabral, a imediata e rigorosa apuração da chacina, desencadeando uma série de investigações e diligencias como nunca ocorrera até aquele momento.

Carta ao presidente
“Presidente Fernando Collor de Mello”.
Palácio do Planalto – Brasília

Nós, familiares das vítimas da chacina ocorrida no município de Malacacheta, em 15.02.90, confiantes no governo proposto por Vossa Excelência, solicitamos clemência e justiça para com nossos mortos, que também irá, por conseqüência, beneficiar a nove outras famílias que também sentiram a dor que estamos sentindo, dor essa provocada pelo mesmo grupo.

Senhor Presidente, nunca existiu punição para estas pessoas. Eles se dizem impunes e acobertados pela Justiça. Dessa forma entram e tomam nossa terra e matam nossa família.
Inquéritos e processos são interrompidos sem explicação alguma.

Por que Presidente? Acabe com essa corrupção. Nossos mortos não veremos. Mas veremos a Justiça brilhar pela dignidade e seriedade do governo de Vossa Excelência. 
Ajudai-nos Presidente.

Família Cordeiro Sexto –
Cordeiro Andrade

Endereço: Rua Larca, nº 43
Bairro União – Belo Horizonte – MG.
Carta da sobrevivente da chacina ao Ministro da Justiça
Ao Ministro da Justiça

“Belo Horizonte, 10 de maio de 1990”.

Ministro Bernardo Cabral

          Fiquei sabendo que o senhor é quem ajuda o Presidente Fernando Collor a fazer justiça.
Também fiquei sabendo que o Presidente pediu para o senhor me ajudar e que o senhor já está fazendo tudo para prender aquelas pessoas que mataram minha família em Malacacheta/MG.

          Outro dia, à noite eu vi o Senhor na televisão e ouvi o senhor dizer que perdeu um irmão da mesma forma que perdi os meus irmãos e pais. Então eu acho que o senhor vai me ajudar muito porque sabe o que estou sentindo e também porque é um grande homem e de confiança do Presidente mais bondoso e bonito que o Brasil já teve.
Quero falar para o senhor que aqui em Belo Horizonte onde estou morando, tenho recebido muita ajuda dos Delegados Otto Teixeira Filho e Raul Moreira e do Promotor Epaminondas Fulgêncio Neto. Sei que eles estão fazendo tudo para prender aquelas pessoas. Mas tenho medo que eles prendam e depois os deputados e juizes os soltem, pois, eles sempre falam lá em Malacacheta que nunca ficaram presos porque eles têm muito dinheiro e gado para dar de presente a estas pessoas para não serem presos.

          Mas o Presidente Collor, o Senhor, o Dr. Otto, o Dr. Raul e o Dr. Epaminondas não vão deixar que isto aconteça. Por favor, me ajude e a minha família. Nossas terras lá em Malacacheta estão abandonadas porque temos medo de voltar. Estamos sendo amparados por parentes e amigos. Nem minhas roupas e bonecas eu pude trazer.
Me ajude, Dr. Bernardo Cabral. Deus e meus familiares irão pagar por mim.

Maria Luiza de Andrade.
(menina de 10 anos, à época da chacina, única sobrevivente da família Cordeiro).

Rua General Andrade Neves, 1015.

30.430 Belo Horizonte – M.G.”.

Abaixo, carta da advogada Rita Virgínia de Andrade, da família chacinada, reconhecendo o trabalho da equipe de policiais civis que participaram das ações policiais que reprimiram a pistolagem e trouxeram à luz da justiça os responsáveis pelos bárbaros assassinatos. Dentre os policiais, os nomes dos delegados João Reis, Faria, Messias de Fátima, José Arcebispo, Otto Teixeira e Altamiro Ferreira. Os detetives José Geraldo da Silva, Cláudio Fernandes “Tafarel”, Márcio Daniel, Mauro Oliveira, Denilson “Cabelinho”, Ivo Oliveira,  Gilberto Bracelares “e todos aqueles que não dispomos dos nomes, mas que participaram das operações sob o comando dos Delegados acima citados”.


“No interior, quando plantamos uma árvore e verificamos que seus frutos são bons, a adubamos mais para que os frutos seguintes sejam mais saborosos”.

Trechos de uma carta da família Cordeiro ao Ministro da Justiça
Nossos mortos não ressuscitarão, bem sabemos, mas, outros serão evitados. A imagem e a dignidade da nossa justiça e da Polícia Civil de Minas Gerais, as quais foram ultrajadas, novamente brilharão em nossos corações e perante nossa sociedade que se encontra abalada com tanta monstruosidade”.

“Nossos familiares se acham ameaçados pelos autores dessa tragédia, os quais se dizem impunes por todos os crimes até hoje praticados, em face de terem uma reserva financeira destinada a atender as emergências de alguns amigos dos meios político, judiciário e policial”.
“A digna Polícia Civil de nosso estado assemelhou-se a um carrasco, desde o momento que nossas vítimas, por nela acreditarem, abriram suas portas, ofereceram de seu pão àqueles que foram seus assassinos”.

Revanche – A Emboscada e Morte de Toninho Leite

Reportagens sobre a morte de Toninho Leite e os criminosos que o emboscaram.

No dia 30 de abril de 1990, Antônio Nunes Leite, o “Toninho Leite”, morreu assassinado numa emboscada com mais de 40 tiros pelo corpo. O assassinato ocorreu quando “Toninho” dirigia sua camioneta D-20, placa QX-9448, pela estrada de terra que liga Capelinha a Malacacheta, próxima a Vila dos Anjos. Quando estava cerca de 10 quilômetros de Malacacheta, a camioneta foi interceptada por um Monza escuro e uma motocicleta, dando início ao fuzilamento. Na companhia de “Toninho” estavam José Américo Arantes e Eli Barbosa Couy, que apesar de receberem vários tiros, escaparam da morte. O filho de “Toninho” Leite, de apenas nove anos, Cismurt Nunes Leite Cunha, que estava na carroceria, escapou pelo mato e foi até a Vila dos Anjos, onde pediu ajuda para o pai. Toninho já estava morto quando a PM chegou e José Américo e Eli foram socorridos . A pedido do delegado Raimundo Soares Pereira, de Capelinha, foram realizadas necropsia e perícia técnica, pelos peritos Wallace e Amaro Salles, além do médico legista de Diamantina. Na cabeça de “Toninho” Leite foram encontrados dois buracos enormes, possivelmente provocados por tiros de escopeta que estraçalharam seu cérebro, além de diversos projéteis em seu corpo.

Há um particular na vida dos irmãos Leite em relação à religiosidade, ou desespero, e Toninho demonstrou essa “fé”, segundos antes de sua morte. O apego religioso, não a um santo, mas ao cônego Lafaiete que tem muitos devotos naquela região. Ao perceber a morte de perto, Toninho Leite gritou, antes de receber os impactos dos tiros mortais:

Valei-me santo Congo” (tratamento que davam ao cônego).

Na lataria, no capô, no pára-choque e até mesmo no chassi foram encontrados fragmentos ou projéteis de calibres diversos. A morte de “Toninho” colocou a população de Malacacheta em pânico, pois tinha certeza que o derramamento de sangue iria continuar, e os irmãos Leite vingariam a morte do irmão. Diante disso houve um velado toque de recolher entre os moradores da região que evitavam sair de suas residências após as 18:00 horas.

Participaram da emboscada e morte de “Toninho” Leite: Salatiel Gonçalves, Ascendino Horta Jardim, o “Cidininho”, José Horta Jardim, Nelson jardim, o “Nelsinho” e Leonilson de Souza Azevedo, vulgo “Negão”, tendo o último sido contratado em Belo Horizonte por Ascendino. Após a execução de “Toninho” Leite, “Negão” roubou o grosso cordão que estava no pescoço do morto.

– José Horta foi condenado a 16 anos e 4 meses, por que além de participar na morte de Toninho, também alvejou seu filho e outra pessoa.

– Salatiel foi condenado a 15 anos e 7 meses. Deu dois tiros em “Toninho” e atingiu um fazendeiro que estava na camioneta. Foi assassinado com um tiro na nuca em abril de 2005 na região de Malacacheta.

– Ascendino foi condenado a 15 anos, apesar de não ter acertado nenhum tiro em “Toninho”. Foi considerado o mentor e coordenador da ação que resultou na morte de Toninho.

– Nelson Jardim foi condenado a 12 anos de prisão e preso em Nova Serrana em junho de 2005. No artigo “Homicídio Sem Corpo”, neste site, registra o relatório sobre o sequestro e morte de “Nelsinho”.

Vingança. A Morte de João Pego

Para explicarmos toda a história e circunstâncias da morte de “João Pego”, vamos retornar um pouco no tempo para conhecermos Sebastião de Arciso da Silva, o pistoleiro Arciso, que matou a vítima na praça principal de Santa Maria do Suaçuí, no dia 11 de agosto de 1990, com três tiros de revólver calibre 38 e projéteis envenenados por estricnina. Arciso nasceu em Afonso Cláudio-ES, em 1962 e aos 24 anos de idade cometeu seu primeiro homicídio ao matar a pauladas um peão, companheiro de serviço, conhecido por Fredolino “Chumaca”, o que lhe custou uma pena de 18 anos de cadeia. Foi preso por policiais de Afonso Cláudio e permaneceu na cadeia local cumprindo pena. Também assassinou seu colega de cela, conhecido por “Antonio Paulo”, com várias porretadas. Em 2 de novembro de 1989, Arciso fugiu da cadeia em companhia de Jorge “Gaiola” e Djalma Salino, indo para casa de Veredino Leopoldo da Silva, irmão do pistoleiro, em São Domingos do Ibicaba, zona rural de Afonso Cláudio.

Naquele local, alguns dias após a fuga, Arciso encontrou-se com um indivíduo conhecido por Joel, também foragido da cadeia de Afonso Cláudio por crimes de pistolagem. Joel falou que já fizera serviços durante anos para os irmãos Leite e estava retornando para suas fazendas, onde trabalhava como “quebra-milho”, convidando Arciso a acompanhá-lo. Garantiu que teria serviço para ele também, já que tinha em seu currículo a morte de dois homens. Arciso chegou naquela região mineira e se instalou na Fazenda Santa Isabel, em Itambacuri. Joel foi para a Fazenda Boa Esperança, em Jaguaritira, município de Malacacheta. Ambas eram propriedade dos irmãos Leite e lá ficaram até a decisão por parte de Alírio, José Leite, Aldécio, Toninho e Aldeci (irmãos Leite) de chacinarem a família Cordeiro. Para tanto, coube a Arciso dar proteção aos familiares dos Leite após a consumação dos assassinatos na Fazenda Canadá, em Jaguaritira, ficando na casa de Aldécio Leite.

Após algum tempo, Arciso retornou com José Leite para a Fazenda Santa Isabel, enquanto Toninho Leite, Aldécio e Ofenir vieram para Belo Horizonte, onde se esconderam. Arciso tomou conhecimento através de pistoleiros que a chacina foi planejada em um garimpo de Nova Era, comandada pelo pistoleiro “Carlão”, com a presença de Aldécio e “Toninho” Leite. Após a morte de “Toninho” Leite, os irmãos Alírio e Aldécio foram até a Fazenda Santa Isabel e disseram para Arciso que precisavam de seus serviços para matar “João Pego”.   Alegaram que a empreitada era por antigas desavenças na comercialização de queijos e também por ser ele o autor da morte do irmão “Toninho”. “João Pego” já havia sofrido dois atentados a mando dos leite, um deles quando três homens, em uma caminhonete Pampa e armas de grosso calibre, invadiram sua fazenda em Água Boa e começaram a atirar, quando “João Pego” e seus empregados reagiram e revidaram as agressões, acertando um balaço na perna de um dos pistoleiros.

Também “Santinho Pego”, pai de João, foi assassinado a mando dos irmãos leite alguns anos antes deste episódio. Para a morte de “João Pego”, combinaram o pagamento de CR$ 200.000,00 (duzentos mil cruzeiros) a serem pagos em quatro parcelas de cinquenta mil cruzeiros, mais os honorários do advogado que iria acompanhar o processo. Ficou combinado que Arciso deveria se deixar prender após o assassinato, pois os Leite tinham amizades com policiais de Santa Maria do Suaçuí, podendo ter acesso ao pistoleiro na cadeia onde iriam efetuar os pagamentos das prestações das empreitadas. Colocaram Sebastião de Arciso em um veículo Gol, de cor cinza, placa de São Paulo e foram para Malacacheta, onde sem serem percebidos, mostraram o Voyage de cor verde, numeral 8593, a casa da vítima e o próprio João Pego. Ele estava há uma distância que não dava para ser bem reconhecido, já que não podiam se aproximar muito. Aldécio e Alírio deram CR$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros) para o custeio da pensão e alimentação do pistoleiro durante as duas semanas que permaneceu em Santa Maria do Suaçuí para se familiarizar com pessoas da cidade e confirmar a pessoa a ser assassinada.

Arciso ficou na pensão de Dona “Mariinha”, sogra do detetive Ofenir, mas achou o preço caro, então “Quincas”, marido de Dona “Mariinha” o levou para ficar na casa da amante, onde permaneceu por cerca de 20 dias. Na casa conheceu “Zoca”, filho de Quincas que preferia a casa da amante do pai à da sua mãe Izolene Alves. “Zoca”, pela promessa de pagamento de CR$ 50.000,00 (cinqüenta mil cruzeiros) indicou “João Pego” por diversas vezes a Arciso. Antes do assassinato o pistoleiro reunia-se sempre aos finais de semana, na casa de Aldécio Leite, onde também participavam das reuniões, Alírio, Aldeci, José Leite, Noélia e os filhos de Aldécio. A família Leite tentaram uma lavagem cerebral, ensaiando a história a ser contada quando Arciso fosse preso pela polícia de forma a desviar a responsabilidade pelo mando do crime, repetindo sempre:

“que fora contratado por um homem conhecido por Ascendino” e “Nelsinho” para matar “João Pego”. Que ao aproximar-se de “João Pego” deveria dizer que estava cobrando o resto do dinheiro para “Ascendino” e “Nelsinho”.

          Com essa versão, matavam o desafeto e jogava nas costas dos assassinos de “Toninho” a responsabilidades de mandantes. A ideia dos irmãos Leite era eliminar “João Pego” e incriminar “Nelsinho” e “Ascendino”, suspeitos da morte de “Toninho Leite”. “Matar três coelhos com uma só cajadada”

Tudo planejado, Aldécio forneceu um revólver calibre 38 com 12 cápsulas intactas e orientou o pistoleiro a tomar cuidado com as balas que estavam “batizadas” com estricnina. Sábado, 11 de agosto de 1990, Arciso se dirigiu para a feira de Santa Maria do Suaçuí em companhia de “Quincas”, que desconhecia as intenções do pistoleiro. Na praça, encostou-se à soleira de um comércio, quando viu “João Pego” se dirigir para a casa de um irmão, aguardando seu retorno, o que demorou cerca de 30 minutos. “João Pego” desceu a rua em direção à praça, cujo movimento era grande, por ser a feira tradicional dos sábados. Vinha gente de todos os cantos da zona rural de Santa Maria do Suaçuí vender hortaliças, ovos, leitões, queijos, frangos, toda a espécie de criações e alimentos provenientes da pecuária e agricultura.

Quando “João Pego” chegou no interior da praça, o pistoleiro aproximou-se e agiu como combinado com os irmãos Leite, gritando que estava ali para cobrar uma dívida de “Nelsinho e Sidinim”, sacando em seguida seu revólver e acionando uma vez em direção a vítima, tendo a munição mascado. “João Pego” pulou em cima do pistoleiro e atracou-se desesperadamente, entrando em luta corporal, tentando desarmar Arciso. O pistoleiro, durante a luta, acionou a arma por mais duas vezes, mascando os dois novos acionamentos. Neste momento, “João Pego” se soltou e tentou sacar um dos dois revólveres que trazia na cintura, mas foi infeliz em sua tentativa de se safar da morte, quando Sebastião de Arciso desferiu os três últimos disparos que atingiram mortalmente a vítima. Preso por um detetive de Santa Maria do Suaçuí, Sebastião de Arciso da Silva foi autuado em flagrante usando o nome de João Pereira de Souza, declarando durante a lavratura a versão dada pelos irmãos Leite. No entanto a farsa não durou muito tempo e a verdade foi descoberta. Por questão de segurança, na época, o pistoleiro foi transferido de Santa Maria do Suaçuí para o Departamento de Investigações em Belo Horizonte, e posteriormente matriculado em uma penitenciária de Neves, de onde fugiu. Foi preso posteriormente no Espírito Santo e assassinado em um dos presídios daquele estado, segundo consta, como mais uma queima de arquivo.

A segunda etapa da história da família Nunes Leite, registrará as ações policiais que possibilitaram a extinção da pistolagem no Vale do Mucuri.

PARTE II – AS AÇÕES POLICIAIS

 ÍNDICE

Capítulo V. A resposta da Polícia

  • A Repressão Policial
  • Operação Nova Era
  • Operação Mucuri
  • Prisões e Fugas
  • A prisão de Aldécio, Aldeci e José Leite

Capítulo VI. Prisões e Enfrentamentos

  • A morte de Carlão
  • A morte de Lenon
  • A morte de Toninho Leite
  • Captura de Ofenir e Giramundo
  • Cemitério clandestino
  •  Depoimento de Zé Guaxe em juízo
  • Depoimento e morte de José Bundão

Capítulo VII. Repressão e Fugas Para Outros Estados.

  • A Apuração do Assassinato de Helvécio Cordeiro em Rondonia
  • Fuga e Prisão de Aldécio Leite
  • O Assassinato de Dario Rodrigues/Cordeiro
  • O Sequestro e Morte de Nelson Jardim

Capítulo. Os Julgamentos.

  • Julgamentos e Condenações

CAPÍTULO V.

A Resposta da Polícia.

A Repressão Policial Contra a Pistolagem

Nesta segunda fase da saga dos irmãos Nunes Leite, faremos o registro dos fatos e ações policiais que ocorreram após a Chacina de Malacacheta e seus primeiros desdobramentos, ainda em 1990. A repercussão nacional pelos assassinatos provocaram reações diversas, que incluíram a manifestação formal do Presidente Collor de Melo propondo colocar a Polícia Federal nas investigações. Haviam suspeitas, principalmente por parte de familiares de vítimas, de omissão, conivência e desídia por parte de policiais, juízes, promotores, políticos e autoridades diversas, que durante pelo menos duas décadas, deixaram a família Nunes Leite cometer seus crimes impunemente.

Secretário de Segurança Pública, Delegado José Resende de Andrade. Delegado Nilton Ribeiro de Carvalho com sua equipe do DI, no início das ações de repressão à pistolagem em Minas Gerais.
Em Belo Horizonte, no ano de 1990, o Secretário de Segurança, José Resende de Andrade, determinou de maneira contundente, que a polícia Civil acabasse com os crimes de pistolagem no Vale do Mucuri e Rio Doce, palco das principais mortes por encomenda no estado, e, principalmente, a apuração da chacina de Malacacheta e os diversos crimes atribuídos à família Nunes Leite. Foram iniciadas, então, inúmeras ações repressivas por parte do Departamento de Investigações e DEOESP. Instauração de dezenas de inquéritos policiais e representações por prisões preventivas pela Delegacia de Homicídios, em um trabalho de excepcional competência investigativa. Operações policiais e diligencias para captura dos criminosos ocorreram em todo o país. Era o início da tolerância zero ao jaguncismo em Minas. A Delegacia de Furtos e Roubos e RODI, órgãos operacionais do DI, foram as unidades policiais que mais participaram nas ações de enfrentamento aos pistoleiros e seus mandantes nas cidades de Vassouras-RJ, Medeiros Neto-BA, Linhares-ES, Imperatriz-MA, Ulianópolis-PA, Rio de Janeiro-Capital, São José do Rio Claro-SP, Jarú-Rondônia e São Paulo-Capital.
Remanescentes do clã Nunes Leite: José, Aldécio, Aldeci, Altair e Alírio, após a morte de”Toninho Leite.

O rol de mandantes, pistoleiros e pessoas envolvidas diretamente nos crimes era grande e necessitava de um trabalho hercúleo por parte da Polícia Civil para resgatar sua dignidade ultrajada pelo uso de seus símbolos na chacina. Tinha de responder com ações específicas de investigações e operacionais, para identificar e responsabilizar todos os autores e partícipes na série de crimes. As respostas viriam rapidamente pela Delegacia de Homicídios, Divisão de Crimes Contra o Patrimônio (Furtos e Roubos), RODI e DEOESP, quando policiais abnegados e comprometidos com suas atividades profissionais desenvolveram uma série de ações, diligencias e operações para coibir as barbáries que envolviam a pistolagem no Vale do Mucuri, outras regiões de Minas Gerais e outros estados da federação, conforme vamos registrar.

Da esquerda para direita, pistoleiros e envolvidos em alguns dos crimes da família Nunes Leite: “Cabelo Seco”, Fabinho, “Giramundo”, Ofenir Pinheiro, Sebastião Pereira de Macedo, o “Zoca”, José Américo de Sales Abrantes, Adauto Donizete, Eli Barbosa Couy, Eva Nilma, Noélia Santana Couy, Islande Aparecida Couy, a “Laninha”. Todos as pessoas aqui citadas foram citadas em investigações, indiciadas e processadas por crimes diversos com a família Nunes Leite.

    Gilberto Cabelo Seco
              Fabinho         Carlão           “Giramundo”             Ofenir             “Zoca”
                 “Zé” Américo          Adauto            Eli Couy    Eva Nilma              Noélia           “Laninha”

Outros pistoleiros e pessoas envolvidas  na história do jaguncismo da região do Vale do Mucuri, com relações diretas com a família Nunes Leite e seus crimes:

  • Albino Alves Pereira
  • Elias Abrantes Quadros de Sales, “Zé Guaxe”
  • João Belchior
  • Israel Ferreira Paulino
  • “Zé Pretim”
  • Sargento Gomes
  • “Zé Henrique”
  • Jader
  • “Joel Garçon”
  • Coronel Rui
  • “João Bundão”
  • Trajano
  • “Ferreirinha”
  • Carlos Roberto Santos, o “Carlinhos Pastor”
  • Elizeu
  • João Moura
  • “Fernandão”
  • José Rosa, o “Tio Pedro”
  • Joel Moreira Alves
  • Sebastião “do Arciso”
  • Geraldo Mariano
  • Ademir
  • Antonio Augusto
  • Gilson Moreira Alves, o “Deca”
  • Geraldo Moreira Lopes, o “Peba”
  • “João Soldado”
  • Sargento Edésio
  • “Bacuri”
  • Odilon Gonçalves dos Santos
  • Carlos Cornélio
  • José Antonio Arthur
  • Eustáquio Leão
  • Zemar
  • Josélio Barros

É notório que a relação aqui registrada representa um pequeno percentual dos criminosos que atuaram a mando, ou em conjunto com a família Nunes Leite ao longo de mais de três décadas. Isso ocorre pela dispersão das provas, provocadas pelo lapso temporal, omissão das autoridades, desestrutura, medo e desinteresse pela apuração dos crimes. Muitos pistoleiros não foram sequer identificados, já que, em várias situações, eram contratados em outros estados, o que dificultou consideravelmente as investigações. No entanto, a partir da Chacina de Malacacheta a Polícia Civil de Minas Gerais já possuía muitos nomes e informações. E fez a parte dela.

Operação Nova Era

Era inegável a força política e econômica dos irmãos Leite até a chacina de Malacacheta, tendo em vista o número elevado de homicídios por pistolagem atribuídos àquela família nas décadas de 50, 60, 70, 80 e 90. A certeza da impunidade era uma realidade para os irmãos Leite, que apoiaram deputados, bancaram campanhas para a prefeitura municipal de Água Boa, Malacacheta e Capelinha. Suas fazendas eram frequentadas por autoridades de toda a espécie. A forma covarde e cruel como se deu a chacina da família Cordeiro em 15 de fevereiro de 1990, na fazenda Canadá, em Malacacheta, precipitou a derrocada dos criminosos. Uma carta da menor Maria Luíza de Andrade, com 10 anos à época e única sobrevivente da chacina, enviada ao Presidente da República, Fernando Collor de Mello, narrando o seu drama, o comoveu. O Presidente da  República enviou ofício ao seu Ministro da Justiça, Saulo Ramos, com uma determinação:

“Quero uma solução para isso já”.

A comunicação chegou a secretaria de segurança, que determinou providências em relação ao caso. No vale do Mucuri as informações corriam dando conta que o restante da família Cordeiro ia ser assassinada e testemunhas não eram encontradas para falar sobre os crimes, prejudicando substancialmente os trabalhos de apuração. Ninguém viu ou ouviu qualquer coisa. Naquele clima de medo, foram deflagradas operações de guerra, com o escopo de levar as raias da justiça, os pistoleiros e mandantes e trazer tranqüilidade para a região. A primeira ação real ocorreu em Nova Era, em oito de março de 1990, quando o chefe do Departamento de Investigações, Nilton Ribeiro com equipe de 45 delegados e detetives fizeram uma devassa no garimpo e casas de Nova Era, onde foram apreendidas inúmeras armas. Dentre elas, metralhadora importada, três escopetas de repetição, pistola 3.57, explosivo plástico, pistola e revólveres de vários calibres. A operação foi desencadeada por policiais da Divisão de Crimes Contra a Vida e Furtos e Roubos, tendo como alvos, suspeitos de envolvimento na chacina de Malacacheta. Inúmeras pessoas foram presas ou ouvidas e as armas encaminhadas para comparação balística no Instituto de Criminalística. No retorno da Operação Mucuri, que será visto abaixo, novamente foi realizada uma operação relâmpago no garimpo, desta feita com um número maior de policiais, incluindo o DEOESP e a Metropol.

Operação Mucuri

Os documentos postados são cópias de parte do planejamento operacional que registrava o mapa da região alvo, as diversas cidades, distritos, estradas, divisão de viaturas e equipes empenhadas na operação.

Logo após a operação Nova Era, ocorreu o minucioso planejamento da maior operação já deflagrada pela Polícia Civil de Minas Gerais, tamanha a magnitude dos trabalhos, quer em estrutura logística, quer em extensão territorial, onde a ação se desencadeou. José Resende de Andrade, Secretário de Segurança, assumiu de peito aberto a luta contra a pistolagem no Vale do Mucuri, dando todas as condições para que a operação policial fosse concretizada. Foram utilizadas cerca de 70 viaturas caracterizadas e descaracterizadas (D-20, C-10, Caravan, Uno e o Brucutu), um caminhão servia como oficina mecânica, outro caminhão para transporte do rancho (cozinha móvel e cozinheiros) além de um para o transporte de combustível. Eram preparativos para uma batalha.
Nilton Ribeiro de Carvalho, Chefe do Departamento de Investigações, coordenador geral da operação. Delegados Ricardo Minelli (Furtos e Roubos), Pedro Moreira Barbosa, adjunto do DI, João Reis, Chefe da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio,  e Inspetor Geral, Samuel Matozinhos, alguns dos responsáveis por coordenações de área.

Esta era a sensação dos policiais do Departamento de Investigações, Metropol e DEOESP, delegados, detetives, escrivães, ao receberem as primeiras orientações no dia 19 de maio de 1990, por volta da meia noite, pouco antes de saírem em comboio para o Vale do Mucuri, onde as incursões seriam realizadas em Capelinha, Água boa e Malacacheta. Nilton Ribeiro, o coordenador da mega operação fez uma preleção, publicada, em parte, no jornal Estado de Minas, de vinte de maio de 1990, que sintetizava todo o sentimento dos policiais civis:

  “Pessoal, esta operação é muito importante para nós da Polícia Civil e o nosso nome está em jogo. Devemos tomar todo os cuidado na sua execução para que ela seja bem sucedida. Na abordagem às pessoas, devemos tratá-las com todo o respeito que merecem como cidadãos. Aquela é uma região onde tem muitos pistoleiros e criminosos que são nossos alvos. Mas, não podemos deixar de observar que a grande maioria da população do Vale do Mucuri é formada por gente trabalhadora, homem do campo, povo sofrido com tanta violência e dificuldade”.

Aos criminosos, todo o rigor que a lei nos permitir. Vamos em frente, que Deus nos acompanhe e ajude”.

Recebeu um sonoro “amém” dos duzentos e dez policiais que acompanhavam a preleção na porta do Departamento de Investigações. A maioria dos policiais trabalhara durante todo o dia e deram continuidade à longa viagem noturna, já que o trabalho requeria sigilo para não vazar informação. Apesar de todo o cansaço de cerca de seis horas de viagem pela madrugada, no início da manhã do dia vinte de maio, as dezenas de viaturas se dividiam em três grupos e as abordagens se iniciavam em Capelinha, Água Boa, Malacacheta e respectivas zonas rurais. Foram dois dias de buscas ininterruptas com cerco total naquela região. Ninguém entrava ou saía sem ser conferido. Após a operação foi feita a avaliação, apurando o sucesso em seus objetivos, sem nenhuma reclamação por abuso dos policiais, apesar do elevado número de participantes. A região nunca mais foi a mesma e ali a era da impunidade começou sua derrocada.

21 de maio de 1990. Jornal Diário da Tarde.

OPERAÇÃO MUCURI

Uma caçada a pistoleiros

Toda a operação está sendo coordenada pelo chefe do Departamento de Investigações, delegado Nilton Ribeiro de Carvalho e coordenada pelos delegados Antonio João dos Reis, Raul Moreira e Pedro Zanella, que foram divididos entre as cidades de Água Boa, Capelinha e Malacacheta. Armados de metralhadoras, escopetas, Winchesteres, bombas de efeito moral e armas convencionais, os policiais partem em diligências no centro e zonas rurais das cidades para apreender armas e os vários mandados de prisão expedidos pela justiça”.

As reportagens dos jornais Estado de Minas e Diário da Tarde, que acompanharam todo o desenrolar da Operação Mucuri, estampavam suas manchetes: “Uma caçada a pistoleiros”, “Polícia fecha o cerco aos pistoleiros” e “Operação de Guerra no Mucuri”.  

As inúmeras viaturas e a grande movimentação de policiais civis fortemente armados desencadeou um clima de tensão e medo, misturados ao alívio de inúmeras pessoas, que, veladamente chegavam até os detetives, delegados e escrivães, agradecendo pela presença, demonstrando a esperança na tranquilidade e paz na região. As ações se concentravam em todas as entradas/saídas das cidades alvos, nas estradas da zona rural, bem como, no cumprimento de mandados de prisão e busca e apreensão que eram cumpridos nas fazendas dos irmãos Leite e criminosos ligados à família. O cerco na região foi de tal envergadura, que o delegado da comarca de Malacacheta foi parado duas vezes em locais de abordagem, obrigando-o a usar um colete da Polícia Civil para evitar o constrangimento. O prefeito de Malacacheta também foi abordado e conferido. Ninguém escapou à investida policial.

As viaturas policiais na Operação Mucuri. Observa-se a movimentação policial em contraste com a rotina do homem do interior do Vale do Mucuri.

Na primeira foto abaixo, registramos a figura folclórica do delegado João do “Cachimbo”, sentado no banco da praça de Água Boa e o “Brucutu” ao lado, frente aos olhares curiosos de meninos daquela cidade. Nas outras fotos: delegados Reis e Hilário, Inspetor Samuel Matozinhos, detetives Cláudio Roberto Coelho, Rogério, Geraldinho “Gogó”, Orlando “Cabeça D’Alho”, Malaguth, policiais do DI e do antigo GAS.

                                                                                          Participaram os três maiores órgãos operacionais do estado: DI, DEOESP e METROPOL.

CAPÍTULO VI.

Prisões e Enfrentamentos

 A prisão de Aldécio, Aldeci e Zé Leite.

Em outubro de 1990, decorridos cerca de nove meses da chacina de Malacacheta, o Delegado José Arcebispo, “Zé Maria Cachimbinho” e cinco policiais foram para o Espírito Santo, onde se encontraram com o então Delegado “Gilsinho”, daquele estado. O objetivo da viagem era a captura dos Irmãos Leite, Aldécio, “Zé” e Alírio, que refugiaram na casa de praia de um oficial PM daquele estado, após a decretação das prisões preventivas pelo Juiz de Santa Maria do Suaçui, Fernando de Alvarenga Starling. Os mandados foram decretados pelas mortes dos fazendeiros João Ferreira de Araújo, o “João Pego” e Felisbino Monteiro, o “Bino Monteiro”. Os policiais conseguiram localizar os irmãos Leite em uma casa em Ponta da Fruta, cerca de 20 quilômetros de Vila Velha, na rodovia do sol.  Naquela oportunidade Alírio Leite, que saíra um pouco antes da chegada dos policiais, conseguiu empreender fuga. Na casa, praticamente todos os utensílios tinham o gravame do símbolo da Polícia Militar, o que demonstrava a cobertura “oficial” que estavam tendo naquele estado. Com a prisão, os policiais de Minas Gerais passaram por constrangimentos e pressões para conseguir sair do Espírito Santo com os presos José e Aldécio Leite, quando a polícia colocou uma série de obstáculos para o recambiamento à Minas. Só com a interferência direta de José Resende de Andrade, junto ao governador capixaba é que foi possível a escolta para Belo Horizonte. Mesmo assim, tiveram de buscar itinerários diferentes para se safar de um possível resgate, anunciado aos murmurinhos nas dependências dos órgãos policiais daquele estado e pela ira do coronel que dava guarida aos criminosos. Aldécio e “Zé” Leite foram conduzidos para Belo Horizonte e encarcerados no centro de triagem do Departamento de Investigações.

Reportagens dos Jornais Estado de Minas e Hoje em Dia registram as ações policiais para coibir o jaguncismo no Vale do Mucuri, com as primeiras prisões dos irmãos Leite e pistoleiros após a chacina: “Acusado, Aldécio afirma que não matou”, “Fim de um ciclo da pistolagem”, “Na saga dos Leite, um rosário de crimes”, “Quebrando a Lei do silêncio”, “Conquista de terra e política”. Nas outras duas reportagens as prisões dos irmãos Leite de Malacacheta e irmãos Curió de São João Evangelista. Os delegados Raul Moreira e Otto Teixeira Filho, dois ícones nas investigações da chacina e uma série de assassinatos naquela região.   Reportagens sobre as prisões de Adauto, “Giramundo”, “Zoca”e Ofenir .

Prisão e Fuga de Gilberto Marçal, o “Cabelo Seco”.

No dia 15/05/90, por volta das 05:00 horas da manhã, vários policiais da Furtos e Roubos e Homicídios cercaram a casa de “Alfredão” em Ribeirão das Neves. Ele era um pistoleiro aposentado que lidava no garimpo de Nova Era e as informações recebidas indicavam sua casa como esconderijo de Gilberto Marçal da Rocha, o Gilberto “Cabelo Seco”. O pistoleiro, partícipe da Chacina de Malacacheta, se encontrava naquele local, escondido com sua companheira, filha de “Alfredão”. Gilberto estava em um dos quartos do andar superior e ao perceber o movimento dos policiais entrando na casa, tentou sair por uma janela do segundo andar, armado com um revólver calibre 38, oxidado, desistindo de seu intento ou de uma reação, ao ver inúmeras armas apontadas em sua direção. O objetivo era a apuração da Chacina de Malacacheta, no entanto, o que tornava legal a prisão de “Cabelo Seco” foi o mandado de prisão por um crime praticado em Conselheiro Pena. Coincidentemente, o inquérito também foi presidido por Otto Teixeira, da Divisão de Crimes Contra a Vida. Ao ser interrogado na delegacia de homicídios, negou sua participação na chacina alegando em sua defesa que, Aldécio queria que ele assumisse os crimes, mas não aceitou, afirmando:
os urubus que fizeram a carniça, que comesse ela”.

 

          No Depósito de Presos da Lagoinha, Gilberto “Cabelo Seco” fez ameaças veladas contra os delegados Nilton Ribeiro e Faria por sua prisão, pela morte de “Carlão” e as apurações dos crimes de pistolagem.

Eles não sabem com quem tão mexendo. Esse delegadinho tá muito pra frente”, disse a um preso, companheiro de cela, que repassou as informações de ameaças para os policiais.

          Ao ser chamado na presença dos dois delegados, no gabinete do Chefe do DI, aconteceu uma cena inusitada. O pistoleiro estava de chinelos, tipo Havaianas e ao se sentar em uma cadeira, cruzou as pernas e os policiais perceberam parte de uma inscrição na sola de seus pés. Ao mandarem mostrar o que estava escrito, verificou-se que a ameaça que fizera para os dois delegados fora trocada. Com caneta esferográfica escrevera: “Os delegados Nilton Ribeiro e Faria querem me matar”.

Sobre suas ameaças, negou peremptoriamente tê-las feito.                                                                                                       

 As prisões de Gilberto “Cabelo Seco” , escoltado pelo detetive Eduardo “Pracatá. Prisões de Eli Couy, José Américo e”Laninha” por equipe do DEOESP. Captura de “Giramundo” e Ofenir, escoltados pelos policiais “Rubão”, da Homicídios e Sidney, da RODI.

Quando Gilberto foi transferido do Depósito de Presos da Lagoinha para a carceragem da Furtos e Roubos (foi ouvido sobre um carro furtado), o pistoleiro ficou temeroso ao entrar naquela delegacia, mudando sua versão de negativa dos crimes e das ameaças contra os dois delegados. Mostrando-se uma pessoa fria, de pouca ou nenhuma sensibilidade, começou a descrever os assassinatos que participou.

  •  Em Conselheiro Pena, Gilberto “Cabelo Seco”, Fabinho e José Batista Lana, o “Lana”, utilizando coletes e distintivos da Polícia Civil, invadiram uma residencia na zona rural,  onde renderam Avelino Fortunato de Andrade, 63 anos e sua mulher Cândida Lino de Carvalho, 60 anos. Levaram o casal para a estrada e os abateram com vários tiros a mando de um fazendeiro que estava sendo traído pela mulher, com um filho de Avelino.
  • Confessou também a morte de Nicolau, assassinado em Peçanha, crime praticado com Deusdeth, ex-policial militar. Naquela cidade também vestiram fardas da PM e fuzilaram a vítima a mando de dois fazendeiros da cidade.
  • Confessou a morte do Presidente do Sindicato Rural de Pancas-ES.
  • Assumiu o assassinato do ex-detetive José Neves da Paz, cuja morte foi encomendada por Getúlio Ataíde, pai de uma jovem assassinada em Montes Claros em 1981.
  • Confessou o assassinatos do prefeito de Rio Pomba, Antonio Motta Filho a mando do fazendeiro Armando Xavier.
  • Assumiu a morte de um motorista de ônibus em Manaus.
  • Confessou ainda, crimes de pistolagem em outros estados.

Na Furtos e Roubos “Cabelo Seco” deu sua nova versão em declarações prestadas, confessando a chacina de Malacacheta:

“Que saíram de Nova Era por volta das 0:00 horas do dia 15 de fevereiro de 1990, usando dois veículos, um Gol com placa fria e um Santana sem placas, chegando na fazenda Canadá por volta das 05:00 horas da manhã. Gilberto portava uma calibre 12 e uma pistola 9 mm; Ademir uma calibre 12 e uma pistola 7.65, Fabinho portava uma pistola 7.65 e um revólver cal. 38. Ofenir usava uma pistola automática e escopeta calibre 12. Carlão portava uma escopeta cal. 12 de repetição e “João Soldado” dois revólveres. As armas, os coletes da Polícia Civil e os carros foram arrumados por “Carlão”, dividindo-se em dois grupos ao chegarem à Fazenda. “Carlão” se identificou como delegado de polícia para José Augusto de Andrade, dizendo que investigavam a morte do pistoleiro Albino Alves Pereira. Mandou buscar o irmão José Augusto Cordeiro que estava em Jaguaritira. Enquanto o aguardavam tomaram café com leite e queijo, sendo bem tratados pelas pessoas que se encontravam na sede da fazenda. Por volta das 07:00 horas da manhã chegaram com José Augusto Cordeiro. “Carlão” falou para todos se reunirem na sala. Estavam presentes José Augusto de Andrade, de 55 anos, sua mulher Eunice Augusto Cordeiro de Andrade, 43 anos, Núbia Florípes de Andrade, 24 anos, Geraldo Augusto Cordeiro, 45 anos, José Augusto Cordeiro, 50 anos e Nacip Augusto Cordeiro, de 23 anos. Carlão mandou Cabelo Seco dar uma busca na casa para verificar se não faltava ninguém, pois o filho mais novo de 18 anos, o “Zé Sextinho”, mentor de tudo, não estava presente. “Cabelo Seco” encontrou José Sexto Neto escondido debaixo de uma cama. Colocou a escopeta na cabeça do rapaz e gozando a cara dele falou:

          Você não é muito homem?  Gosta de encarar e agora está se borrando todo?.

          Neste momento “Cabelo Seco” disparou um tiro de escopeta à queima roupa, esfacelando a cabeça de “Zé Sextinho”, em seguida outro no tórax. Ato contínuo, os demais criminosos prosseguiram com a matança, sendo ouvidos vários tiros na casa. Eunice, no desespero, tentou se esconder atrás do vaso sanitário, onde morreu com tiros de escopeta. O corpo de Geraldo foi encontrado a seu lado. Núbia e Nacip correram para fora, mas foram abatidos com vários tiros já na varanda da casa. Os outros dois homens da família Cordeiro foram trucidados com vários tiros de escopeta e armas semi-automáticas na cozinha da residência. Cabelo Seco recebeu Ncz$ 100.000,00 (cem mil cruzados novos) por sua participação na empreitada, cujo móvel do crime foi a morte do pistoleiro Albino, homem de confiança da família Leite, morto por Geraldo Augusto Cordeiro quando tentou matar seu sobrinho “Zé Sextinho”. Essa última vítima era o objetivo principal, porque, segundo “Cabelo Seco”:

          Andava pela cidade de Malacacheta todo vestido de preto e dando uma de valentão e ainda com um revólver na cintura, motivo pelo qual foi apelidado de capitão gancho e que no dia da chacina, quando cheguei a 12 nele ele se cagou todo”.

Reportagens: “Cabelo Seco” confessa uma série de assassinatos por pistolagem. Reconstituição do assassinato de “Zé Neves”, em Ribeirão das Neves. Gilberto “Cabelo Seco, à vontade, sem algemas, em Neves. A fuga misteriosa: Fugiu? Mas como? A última foto registra sua saída da Furtos e Roubos, quando confessou seus crimes.

Texto extraído do livro de Paulo “Maloca”.

Dias depois de sua prisão,Gilberto Cabelo Seco conseguiu uma fuga espetacular que de nada adiantou. Houve boatos, que depois foram confirmados, dando conta de também ter sido morto… O pistoleiro Fábio Elias, envolvido na chacina, não ousou reagir à prisão para não morrer, e assim preferiu ir para detrás das grades.”

A fuga de Gilberto “Cabelo Seco” nunca foi bem explicada, mesmo diante de uma sindicância instaurada para apuração de suas circunstâncias. Uma corrente registrava que realmente ele tinha foragido e sido assassinado posteriormente. “Alfredão”, seu ex-sogro, chegou a afirmar que Gilberto “Cabelo Seco” foi visto em São Paulo após a fuga e estaria escondido naquele estado. Outra versão apontava que a fuga teria sido simulada e que ele foi morto pela polícia. A verdade, provavelmente, foi enterrada junto com todas as vítimas do pistoleiro.

A Morte de Carlão

“Carlão planejou

Conta o pistoleiro Ofenir que na época que trabalhava em um garimpo em Nova Era, outro pistoleiro, conhecido por Carlão, a mando dos Leite, arquitetou a vingança. “Revoltado com a morte de Albino, reuniu os colegas de garimpo e nos deu ordens para ir à fazenda dos Leite, em Malacacheta, executar o serviço”, lembrou Ofenir. Com seus comparsas Fabinho, Cabelo Seco e Bacuri e os militares, soldado Antonio Augusto que morreu em um acidente de trânsito, o sargento Edésio, preso por outro homicídio em Teófilo Otoni e o soldado Carlos Cornélio, o Carlinhos, Ofenir e eles seguiram em dois carros para a fazenda dos Cordeiro de Andrade, disfarçados de policiais civis. Todos usavam coletes da polícia e foram bem recebidos pelos Cordeiro.” Julho de 1990. Jornal Estado de Minas.

 

No dia 18 de abril de 1990, o delegado Faria era titular da 4ª Delegacia Especializada de Furtos e Roubos, sendo chefe da Divisão, Antonio João dos Reis, foi chamado ao Gabinete do Chefe do Departamento de Investigações, Nilton Ribeiro. Ao chegar se reuniu com o chefe do DI e os delegados Raul Moreira (Chefe da Divisão de Crimes Contra a Vida) Otto Teixeira e José Arcebispo, da Homicídios. Segundo Nilton Ribeiro, a orientação do Secretário de Segurança José Resende era no sentido de que fosse escolhida por Faria uma seleta equipe da Furtos e Roubos e que deslocassem imediatamente para Nova Era. Nilton Ribeiro lhe entregou os mandados de prisão de Hamilton Leite Costa, vulgo Carlão e Fábio Elias dos Santos, vulgo “Fabinho”, requeridos à justiça pelos policiais da Delegacia de Homicídios. “Carlão” era um dos envolvidos na Chacina de Malacacheta, conhecido por sua periculosidade, principalmente quando cheirava cocaína.

Abaixo: O Secretário de Segurança José Resende de Andrade, o Chefe do Departamento de Investigações, Nilton Ribeiro de Carvalho, Chefe da Divisão de Crimes Contra a Vida, Raul Moreira, Chefe da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio, Antonio João dos Reis, Otto Teixeira Filho, Edson Moreira e José Arcebispo, titulares de Delegacias Especializadas de Homicídios. Apesar do título da reportagem da Revista Isto É, do mesmo período temporal, a ordem era para prender “Carlão”, desde que as vidas dos policiais não fossem colocadas em risco.

Dentre os crimes de “Carlão”, registramos um assassinato no garimpo que demonstra o seu perfil violento. Um Oficial de Justiça escoltado por um Policial Militar foram tomar posse de parte do garimpo em cumprimento à decisão judicial. Junto aos dois, um homem os acompanhava em razão de ser o beneficiário da sentença de reintegração de posse. “Carlão” não pensou duas vezes, sacou suas armas e assassinou o rapaz com onze tiros, sob o argumento de que ninguém iria tomar posse ali. Além de matar, colocou o militar e oficial de justiça para correr. Realmente em Nova Era, tanto a Polícia Militar quanto à Polícia Civil não interferiam com “Carlão”. Por omissão, ou medo.

Hamilton Leite Costa, “Carlão” e reportagens sobre as armas apreendidas no garimpo de Nova Era e no Pará.

Nova Era no período de garimpo, na década de 90, parecia uma cidade do velho oeste americano, onde o pistoleiro “Carlão” desfilava pela cidade, portando de forma acintosa, sua escopeta de repetição, armas de grosso calibre e até metralhadora sem ser molestado. O Chefe do Departamento de Investigações advertiu o delegado Faria quanto à ameaça que “Carlão” havia feito na cidade, de ter colocado várias bananas de dinamite no seu carro para,“caso a polícia de Belo Horizonte tentasse prendê-lo, não se entregaria vivo e levaria muitos policiais com ele”. O delegado escolheu policiais das cinco delegacias especializadas de Furtos e Roubos, adotando o critério de segurança, valentia e destemor. Partiram para Nova Era por volta das 16:00 horas em quatro viaturas. Pegaram a BR 262 com as sirenes ligadas e por volta das 17:00 horas já entravam da cidade, indo primeiramente ao garimpo, onde os alvos poderiam estar. Na estrada de terra que os conduzia ao garimpo, avistaram um veiculo Monza, em sentido contrário, onde possivelmente estariam “Carlão” e “Fabinho”. Os policiais da Furtos cercaram rapidamente o carro, no entanto, era de um policial que fazia segurança no garimpo, que lhes forneceu as informações para prisão dos pistoleiros. Os criminosos estavam na casa de “Carlão”, na cidade, em uma camioneta F-1000 e bem armados. O policial civil, apesar de fazer segurança no garimpo, prontamente ofereceu para ajudar. Faria entrou no carro particular do policial/segurança, junto com dois detetives da Furtos, por ser um veículo particular e conhecido dos pistoleiros. Assim, não despertaram a atenção de “Carlão” e deslocaram com o Monza, cerca de quinhentos metros à frente das viaturas policiais. Ao entrarem na rua onde residia “Carlão”, conseguiram aproximar da casa, onde o criminoso se encontrava com uma escopeta em uma mão e arma na cintura, preparando-se para entrar em sua camionete na companhia de outro homem, sem atentar para o veículo que aproximava.
A rua onde “Carlão” morava era uma descida longa e apesar do carro ter passado incólume de observação, o criminoso percebeu o movimento das viaturas policiais no alto e recuou em direção à sua casa, preparando a arma que estava em sua mão para o ataque. Quando o delegado e seus dois policiais desceram do Monza com suas armas em punho, “Carlão” atirou na direção dos policiais e sumiu portão adentro com o outro homem, possivelmente “Fabinho”. Faria e os policiais que estavam no Monza entraram no encalço dos bandidos pela frente da residência, enquanto os demais policiais chegaram rapidamente e cercaram o imóvel pelas laterais e fundos, revidando os tiros recebidos na resistência à prisão, em meio ao corre-corre de pessoas que se encontravam na rua e no interior da casa. Ao chegarem ao fundo da residência, próximo a um barracão, “Carlão” estava caído, agonizando, em razão de diversos tiros que recebera. “Fabinho” conseguira fugir. Foi determinada a imediata remoção para o hospital, onde chegou sem vida. As armas apreendidas e os projéteis deflagrados foram encaminhados à Justiça para serem periciadas e o processo em relação à morte de Hamilton Leite Costa foi arquivado, pelas circunstâncias legais da morte, conforme despacho do promotor Francisco Santiago, na ocasião, representante do Ministério Público da comarca.

Registro de parte da equipe policial que tentou prender “Carlão” em Nova Era. Por falta de material, alguns policiais deixaram de ter suas fotos registradas neste espaço, cujos nomes são relacionados abaixo.

Delegado Faria, titular da 4ª Delegacia Especializada de Furtos e Roubos, coordenador da operação. Equipe: Paulo Menezes (Paulo “Silu”), José Frederico Falcão, Alcides Martins Maia Filho,  Daniel, Marco Antonio Andrade, Mauro Edson Oliveira”, Pracatá”, Denilson Ferreira da Silva (“Cabelinho”). Almir “Zito”, Gilberto Cunha Bracelares, Álvaro Amaral Júnior e Eustáquio Perez (Juruna). Participaram ainda, os policiais: Eduardo Santos Abreu (Eduardo Preto),  Luiz Fernando Cândido e José Paulo Chaves.

Trecho do livro “Só os Fortes Sobrevivem”, de “Paulo Maloca”, sobre a diligência:

“Em Nova Era chegara vez de Carlão Leite prestar contas à justiça e ao diabo pelos seus crimes bárbaros. No dia da chacina ele teria se passado falsamente como delegado, usando um colete da Polícia Civil. Chegara a hora de enfrentar um de verdade.

Carlão comandava o garimpo de Nova Era, onde tinha ficado rico com pedras e pistolagem, sempre protegido por outros pistoleiros. Morava numa fortaleza, vigiada por cães dobermann, a qual foi cercada por um dos mais temidos delegados da polícia mineira – Dr. Antonio Carlos de Faria – juntamente com uma equipe de policiais: Gilberto Bracelares “Gilbertão”, “Falcão”, Denilson “Cabelin” e Pracatá, todos escolhidos a dedo para uma operação de guerra contra um dos pistoleiros mais impiedosos de que se tem notícia em todo o estado.

Carlão reagiu ao cerco policial, com uma espingarda de repetição calibre 12, e após uma intensa troca de tiros, foi morto metralhado pelos policiais que cumpriram seu dever a sangue e fogo”.

Coação de Testemunha

A coação de testemunhas sempre fez parte do cotidiano da família Nunes Leite, como pode ser observado nas diversas investigações, inquéritos policiais, processos e reportagens sobre a pistolagem na região do Mucuri. As testemunhas “nunca viram nada”, ainda que presentes nos locais de crime, ou falavam qualquer coisa contra os Leite, por temer por suas vidas. E esse medo era justificável, diante de uma família que não tinha inimigos, por uma razão simples, não os deixavam vivos. Os exemplos mortos dessa verdade são os inúmeros pistoleiros abatidos como queima de arquivo e o próprio João “Bundão”, assassinado em uma das fazendas dos Leite, após testemunhar sobre crimes da família.

Aqui quem não morre de tiro, morre de medo”.

Aqui tem crime, mas não tem criminoso”

“A situação pode se complicar se os Leite voltarem para Malacacheta”.

Frases do coveiro Waldir Pereira dos Santos, de Malacacheta, que, em sua simplicidade de homem do interior, expressava a realidade daquela gente.

As reportagens: “Mesmo preso, José Leite ameaça testemunhas que vão acusá-lo. Nunes Leite intimidam testemunhas. MEDIDA DE SEGURANÇA-Testemunhas foram depor algemadas. Coveiro vê crimes e não vê criminosos”, aqui registradas dos jornais Estado de Minas, Diário da Tarde e Jornal O Globo estampam a insegurança das testemunhas envolvidas em crimes praticados pelos irmãos Leite.

Jornal Estado de Minas. 3/5/1991

“Apesar do esforço da polícia em acabar para sempre com os crimes de pistolagem, em Minas, evitando tragédias como a Chacina de Malacacheta, que dizimou sete pessoas da família Cordeiro, o predomínio dos assassinos, membros da família Nunes Leite, prevalece nos Vales do Mucuri e Rio Doce, impondo seus métodos: o medo e o terror.

…mesmo preso na carceragem da Delegacia de Vigilância Geral, o fazendeiro José Nunes Leite, um dos mandantes dos 44 homicídios apurados e atribuídos aos Nunes Leite, dava ordens expressas, através de cartas a pessoas de confiança das cidades de Malacacheta e Água Boa, para que coagissem as principais testemunhas dos crimes.”

 

A Morte de Lenon

Helenísio Nunes Leite, “Lenon”, seu assassino, Elias Abrantes Quadros de Sales, o “Zé Guaxe” e reportagem sobre as denúncias que fez contra os irmãos Leite. Na última reportagem, do Jornal o Globo

Com a prisão de Aldécio, José Leite e outras pessoas envolvidas com a família Leite, iniciava-se a derrocada dos Nunes Leite, o medo das pessoas diminuía e a vontade de enfrentá-los da mesma forma, ou seja, com violência, aumentava entre os seus desafetos. O primeiro enfrentamento, já registrado na I Parte da saga, ocorreu na estrada entre Água Boa e Malacacheta, “Toninho” Leite foi emboscado e assassinado com vários tiros, quando dirigia a camioneta em direção a uma de suas fazendas. No dia 24 de novembro de 1991, ocorreu mais um capítulo de sangue na vida dos Leite, desta feita não mataram ou mandaram matar alguém, o revés foi o assassinato de Helenísio Nunes Leite, filho de 14 anos de Aldécio Nunes Leite, assassinado pelo vaqueiro Elias Abrantes Quadros de Sales, vulgo “Zé Guaxe”, que trabalhava há 12 anos na Fazenda Boa Esperança, em Malacacheta, de propriedade dos irmãos Leite. “Zé Guaxe” declarou, após sua prisão, que era constantemente espancado por “Lenon”, que abusava de sua condição de filho de Aldécio leite para surrar os empregados. O atrito entre “José Guaxe” e “Lenon” iniciou-se porque o primeiro comentou que iria mudar para São Paulo e precisava que acertassem suas contas pelos doze anos trabalhados, quando o segundo disse:

“Que mudar que nada. Se você sair da fazenda você vai é juntar com esse povo e nos perseguir”.

“Lenon” teria dito a “Zé Guaxe” que já tinha mandado seus vaqueiros atrás dele em Jaguaritira para arrastá-lo em um burro até sua presença, passando a desferir-lhe socos e chutes. “Zé Guaxe” lembrou que “Lenon” guardava um revólver debaixo do colchão, entrou na casa, achando a arma dentro do guarda-roupas, passou pela cozinha e chegou ao alpendre onde o rapaz se encontrava.

Você ainda não foi embora não? Quando os vaqueiros chegar eles vão te arrebentar no pau.”

“Lenon” se levantou para apanhar um cabo de vassoura que estava atrás da porta para agredir “Zé Guaxe”, que não esperou, desferindo um tiro certeiro, quase à queima-roupa, no ouvido de Lenon, que caiu de bruços, tendo um banco de madeira tombado sobre seu corpo. Ato contínuo, “Zé Guaxe” descarregou o revólver no corpo da vítima, certificando-se desta forma, que realmente estava morto. Após fugir, “Zé Guaxe” foi perseguido pelos vaqueiros de Aldécio Leite, conhecidos por “Antonio”, “Paulinho” e os dois irmãos Valdeci e Ivailton, filhos de Lúcia Matias, irmã de dois pistoleiros dos Leite que participaram da chacina da família Juca Peão. Antes da morte de “Lenon”, “Zé Guaxe” procurou a Polícia Militar e a Polícia Civil para ajudarem a buscar suas coisas na fazenda, pois temia as ameaças dos vaqueiros da fazenda, no entanto, não foi atendido. Procurou Eva Nilma, mulher de Aldécio, para acompanhá-lo até a fazenda, mas essa se recusou, alegando que “o mais forte engole o outro”.

E engoliu.

Cemitério clandestino

Final de dezembro de 1991, o delegado Antônio João dos Reis, na época, titular do DEOESP, empreendeu uma diligência à Fazenda Urupuca, a 40 quilômetros de Malacacheta, para localização de um suposto cemitério clandestino, onde estariam enterradas várias vítimas de crimes de pistolagem, praticados pelos irmãos Nunes Leite. A fazenda pertencia à família Leite e segundo informações do vaqueiro Elias Abrantes Quadros de Sales, vulgo “Zé Guaxe”, que se encontrava preso pela morte de Elenízio Nunes Leite, filho de Aldécio Nunes Leite, vários corpos foram enterrados após serem assassinados e ele poderia levar ao local. João Reis viajou para a região de Malacacheta com 23 policiais da Divisão de Operações Especiais, além de um médico legista e perito criminal. Ao chegarem ao local indicado por “Zé Guaxe”, a equipe do DEOESP localizou ossadas de seis pessoas que foram encaminhadas ao IML para serem periciadas. A suspeita era de que uma das ossadas pertencia a Humberto Augusto Cordeiro, vereador de Malacacheta, integrante da família Cordeiro, desaparecido em 20 de junho de 1990, quando sequestrado no Bairro Industrial.

O local do cemitério era de difícil acesso, chovia muito na ocasião, obrigando os policiais a caminharem por uma trilha de terra batida, acidentada e escorregadia, com muito barro, poças d’água e atoleiros, além da vegetação densa e aglomerada. Atolaram as viaturas por várias vezes, durante o dia e à noite, contando com a ajuda de fazendeiros da região para a retirada dos carros com o uso de trator. Depois de muita dificuldade conseguiram encontrar o cemitério clandestino, que ficava próximo da casa do lavrador Onofre Monteiro Santos, na fazenda Palmital, Malacacheta, propriedade de Antônio Nunes Leite.

Jornal Estado de Minas. Novembro de 1991.

“As ossadas

Os dois cemitérios encontrados ficam a poucos quilômetros da fazenda Urupuca, anteriormente administrada por “Toninho” Leite, antes de seu assassinato em 30 de abril do ano passado por membros da família Cordeiro de Andrade. Para chegar aos cemitérios, os 23 policiais tiveram de andar mais de duas horas a cavalo. Já no alto de uma montanha José Elias indicou os lugares e deu-se início às escavações.”

Viaturas do DEOESP atoladas durante as diligencias.

           No local foram encontrados:

  •  1 caixote retangular de madeira contendo uma ossada humana (adulto jovem) de aproximadamente 25 anos de idade, tendo o crânio fraturas múltiplas, caracterizadas por projétil de arma de fogo. A morte diagnosticada ocorreu em consequência de traumatismo crânio encefálico causado por instrumento contundente e pérfuro-contundente.
  • Um caixote de madeira retangular, contendo uma ossada humana (adulto jovem) de 20 a 25 anos de idade, com várias lesões, assim descritas pelos médico legistas: fraturas lineares no crânio, fratura do 9º arco costal, fratura do púbis, perda de substância da extremidade distal do 6º, 7º e 8º arcos costais. Côndilo occipital estrangulado e o esquerdo destruído. Vértebras e escápulas com múltiplas fraturas. Apesar das inúmeras lesões, a morte ocorreu em conseqüência de traumatismo craniano, devido à agressão por instrumento contundente.
  • Na última sepultura escavada foram encontrados vários fragmentos de ossos humanos que seriam de quatro (quatro) indivíduos distintos, sendo a conclusão das mortes traumatismo craniano por instrumento contundente.

Conta-se na região, que os irmãos Leite mandaram matar mais de cem pessoas e inúmeros corpos foram “plantados” em cemitérios clandestinos como esse, mas que nunca foram encontrados. Dentre as vítimas constam inúmeros pistoleiros do Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro, que eram contratados, faziam o serviço sujo e na hora do pagamento recebiam tiros ou eram torturados até a morte e enterrados em covas rasas como queima de arquivo. Durante a operação realizada pelo DEOESP, várias pessoas ligadas à família Leite foram presas por participações diversas em crimes perpetrados na região.

Eli Barbosa Couy, o Eli de Carrim e José Américo de Sales Abrantes foram presos e fichados do DEOESP como partícipes do sequestro e morte de Humberto Augusto Cordeiro. Nas fichas policiais de Islande Aparecida Couy, a “Laninha” e Noélia Santana Couy registram:

Presas em 1991, envolvidas no sequestro de Humberto Augusto Cordeiro e ocultação de cadáveres na cidade de Malacacheta”. “Pistoleiros. Acusados de serem autores do sequestro e assassinato, tendo enterrado nas terras da Fazenda Urupuca, em Malacacheta-MG”

          João Inocêncio da Silva, o “João Bundão” foi preso em 1992 pela Polícia Civil de Capelinha por envolvimento na Chacina de Malacacheta e encaminhado para a carceragem do DEOESP. Pouco tempo depois seria libertado e morto na fazenda dos irmãos Leite. À direita a ficha de “Zé Guaxe, preso no DEOESP quando assassinou Lenon, filho de Aldécio Nunes Leite.

Trechos do depoimento de Zé Guaxe em juízo

  •  “Plantar”: significa matar uma pessoa e enterrá-la próxima a uma porteira, na beira de uma cerca e não no cemitério (Zé Guaxe).
  • “Os irmãos Leite não pagam ninguém e são piores que a polícia para baterem na gente”.
  •  “Não concordo em fazer da pistolagem meio de vida, pois dinheiro de pistolagem não rende”.
  •  “Lubrinou e qualquer lubrina faz barro no curral da fazenda”.
  •  “Quando imputou a morte de Elenísio a membros da família Cordeiro o fez por ameaça dos Leite”.
  • “Joaquim do Ó, depois que mataram seus filhos, vendeu as terras por “micharia” para os irmãos Leite”.
  •  “Que Humberto ficou sofrendo durante sete dias até a morte, naquelas capoeiras por lá”.
  •  “Que ficou sabendo da descoberta do Zanal de Armas”.
  • “Que o amigo que considera hoje é Deus”.
  •  “Que confirma ter deposto por vingança dos Leite, que confirma tal depoimento tanto aqui quanto no inferno”.
  • “Que tanto na bueira quanto na “capoeira” as armas eram guardadas devidamente lubrificadas”.
  •  “Que nunca ajudou a carregar defunto, cavar covas ou enterrar alguém”.

Transcrição de algumas frases de José Elísio Abrantes de Sales, vulgo “Zé Guaxe” (vaqueiro dos Leite) no depoimento prestado no II Tribunal de Júri, em 16 de junho de 2000, na presença do Juiz Presidente José Amâncio de Souza Filho, dos Promotores Francisco de Assis Santiago e Vagner Vartulli, do Assistente de Promotoria João Mendes Campos, Advogado de Defesa Lúcio Adolfo da Silva e réu José Nunes Leite.

Depoimento e morte de João Bundão

João Inocêncio da Silva, vulgo “João Bundão” trabalhou desde os 12 anos de idade, como vaqueiro, na Fazenda Serra Azul, município de malacacheta, de propriedade de Alírio Leite.

“Era pessoa tida como forja da família que trabalhava nas horas vagas como vaqueiro, mas exercia a função pública de pistoleiro”.

Em 1º de abril de 1992, prestou depoimento ao Delegado Anselmo Resende Gusmão sobre o desaparecimento de Humberto Augusto Cordeiro e ao assinar sua oitiva, assinava também sua sentença de morte. “João Bundão” afirmou:

que entre a morte de Humberto e Bino Monteiro, Alírio esteve na fazenda acompanhado de Renato e Joel (pistoleiro do Espírito Santo) com um veículo Gol de cor cinza”. Que disse a Alírio:

“Ô padrinho, você ficou sabendo do sumiço de Humberto Cordeiro?”.

   Alírio retrucou dizendo: “Vê se esquece esse homem, ele já foi pro inferno e não quero que toque nesse assunto”.

Que naquela oportunidade fazia-se presente, além de Alírio, seu irmão Aldécio Leite e um elemento conhecido por “Giramundo”. Alírio disse para hospedá-lo, pois ele iria matar o elemento conhecido por “Bino”. Que se encontrou na fazenda de Zé Leite com as pessoas de Joel da cidade de Vitória (pistoleiro) e uma pessoa que respondia pelo nome de Adélcio (pistoleiro). “Que perguntou a Joel se sabia do desaparecimento do Humberto Cordeiro, ao que o mesmo disse que “esse aí já era”. Que acredita firmemente na hipótese da autoria do crime contra Humberto ser de Joel, Renato, Adélcio e Alírio. O autor da morte de Bino chegou a pernoitar em sua residência por uma noite”. “A morte de Bino era devida aos comentários que ele fazia em querer ajudar a família dos Cordeiros a vingar a morte dos familiares”. “Alírio insistiu com o declarante para acompanhar “Giramundo”, contudo se negou”.

 “No dia da morte de “Bino”, “Giramundo” estava aguardando a passagem do mesmo naquela propriedade”. “Era em torno de 16:00 horas quando “Bino” transitava em uma Caminhonete Pampa de cor creme e “Giramundo”, ao constatar que era ele montou em um cavalo e saiu atrás do mesmo”. “Que foi ameaçado por Aldécio Leite (estava junto com ele e Zé Leite na mesma cela) a contar a história do jeito que deveria ser, ou seja, que teria sido, teria ouvido os disparos de arma de fogo e que poderia ser “Giramundo”, não tendo em nenhum momento mencionado os nomes Adélcio e Zé Leite”. “Que após encontrar-se preso preventivamente e acusado de algo que não fez, decidiu contar a verdade do que tem conhecimento”.

Depois de “Zé Guaxe”, “João Bundão” foi o segundo vaqueiro dos Leite a depor contando a participação deles em crimes na região de Malacacheta e Capelinha e para a família Leite este ato era imperdoável.

É interessante lembrar João Inocêncio, o “João Bundão”, foi colocado em liberdade por razões que as instruções processuais não explicam claramente e assassinado numa das fazendas dos Leite pelo pistoleiro Odilon Gonçalves dos Santos, pessoa também tida como forja da família Leite que exercia a função de pistoleiro”.
João Inocêncio da Silva foi assassinado quando ordenhava vacas na Fazenda dos irmãos Leite e o processo tramitava na comarca de Malacacheta onde Eva Nilma era apontada como mandante no crime. Os autos foram desaforados para Belo Horizonte e no ano de 2005 Nilma foi absolvida.

As reportagens acima, dos jornais Estado de Minas e Hoje em Dia, registram momentos que marcaram ações policiais e os desdobramentos da repressão ao jaguncismo no Vale do Mucuri a partir da Chacina de Malacacheta.

  • A primeira cujo título é “Carta Deplora decisão” refere-se à uma mensagem enviada pelos familiares da família chacinada contra a decisão judicial de colocar em liberdade os pistoleiros, demonstrando de maneira inequívoca o acobertamento aos crimes de pistolagem por parte de alguns juízes.
  • O título “Urupuca é varrida” é de uma reportagem sobre a ação policial desenvolvida pelo DEOESP na localização do cemitério clandestino com restos de corpos em uma das fazendas dos irmãos Leite e a prisão de pessoas ligadas à família, envolvidas em crimes como o desaparecimento e assassinato de Humberto Cordeiro.
  • “Mais crimes dos Leite estão sendo apurados” trás as denúncias de “Zé Guaxe”, em relação a outros assassinatos por pistolagem.
  • Na última reportagem: “Acusado, Aldécio Leite afirma que não matou”, registra o interrogatório em juízo.

Reportagem do Jornal Estado de Minas de 31 de dezembro de 1991, sobre as prisões de Noélia, “Laninha”, Ely e José Américo pelo DEOESP, quando do descobrimento do cemitério clandestino.
Acima, à direita, a fazenda Urupuca, propriedade dos irmãos Leite.

As Prisões de Ofenir e “Giramundo”.

Policiais que participaram das diligencias para prisão desses dois pistoleiros: Delegados Faria (RODI) e Edson Moreira(Homicídios). Miltão, Jorge Camarão, Geraldo BC, Semim, Rubão e Sidney.

No mês de julho de 1993 reuniram-se duas equipes de policiais da Furtos e Roubos e Divisão de Crimes Contra a Vida, sendo Faria e Edson Moreira os delegados e Jorge “Camarão”, Geraldo “BC”, Jorge Simim, “Rubão” e “Miltão” os detetives que acompanhavam. A missão, diligências em Lajedão, Serra dos Aimorés e Medeiros Neto na Bahia para captura do pistoleiro Donizete Pereira dos Santos, vulgo “Giramundo” e em prosseguimento, à João Neiva, no Espírito Santo para a prisão de Ofenir Pinheiro Machado, detetive aposentado. Contra os dois foram expedidos mandados de prisão pela Justiça de Malacacheta por suas participações em crimes de pistolagem e na Chacina de Malacacheta. Após a morte do pistoleiro Albino, os dois tornaram-se homens de confiança da família Leite e a captura deles era de vital importância para esclarecimento de pontos intrincados do processo das mortes dos membros da família Cordeiro. A polícia sempre trabalhou com muita dificuldade no aspecto operacional, principalmente em se tratando de diligências em outros estados. Os policiais viajavam com dinheiro do próprio bolso (até hoje), buscando o ressarcimento no retorno das viagens.

Neste caso não foi diferente. Viajaram para Governador Valadares onde conseguiram com o fazendeiro João Martins, o abastecimento para o prosseguimento da viagem. Pararam em Teófilo Otoni, onde o Delegado Regional Geraldo Magela conseguiu um hotel e reabastecimento das viaturas, completando os tanques. Tomaram banho, jantaram e descansaram de 21:00 horas até aproximadamente meia-noite, quando prosseguiram a viagem em direção a Serra dos Aimorés, Lajedão e Medeiros Neto. Viajaram durante toda a madrugada, percorrendo diversas estradas de terra, com o frio do inverno penetrando nas gretas das viaturas, gelando os policiais. O sono foi espantado pela tensão e o aspecto sombrio da região, principalmente pelos trajetos na zona rural. Por volta das 4:00 horas da manhã passaram pelo centro da cidade de Medeiros Neto, deserta naquele horário. Percorreram algumas fazendas até chegarem ao destino do alvo. Pararam as duas viaturas e andaram cerca de cinco quilômetros até entrarem na sede da fazenda de “Carlinhos Varejão”, rico e influente fazendeiro na Bahia e Espírito Santo. A noite fria de julho trouxe muita neblina e pouca visibilidade para os policiais enquanto caminhavam até a fazenda. A casa principal era grande, em estilo colonial, à esquerda da entrada e à direita uma casa menor, onde possivelmente moraria o caseiro e “Giramundo”. Ao se aproximarem notaram movimento e barulho na segunda casa, que foi cercada rapidamente, aos costumeiros gritos de “polícia, a casa caiu “Giramundo”.

“Giramundo”, acuado, com seu revólver calibre 38, desistiu de qualquer reação, diante da iminente morte no caso de resistência. A porta da frente da casa foi arrombada e o criminoso dominado. Na casa grande da sede, as janelas abriam pequenas frestas e murmurinhos eram ouvidos e ao perceberem que aqueles policiais estavam bem armados e dispostos ao enfrentamento, as pessoas que ali se encontravam não esboçaram qualquer gesto para interferir. O objetivo fora alcançado. As equipes da RODI e Homicídios foram para as viaturas e saíram rapidamente de Medeiros Neto-BA para Nanuque, onde chegaram por volta das 7:30 horas. Foram direto à delegacia regional e só por volta das 10:00 horas conseguiram ser atendidos pelo titular, que forneceu apenas 30 litros de combustível para as duas viaturas completarem a viagem ao Espírito Santo. Os delegados Faria e Edson Moreira, com suas equipes, seguiram pela estrada que liga a cidade de Montanha e São Gabriel da Palha à Linhares-ES. Exaustos, pernoitaram em um hotel na parte central da cidade de Linhares, encarcerando “Giramundo” na delegacia local. As 6:00 horas da manhã prosseguiram em direção ao garimpo de João Neiva, naquele estado, onde possivelmente encontrariam Ofenir Pinheiro. Desceram pela BR-101 até chegarem próximo à cidade de João Neiva, parando em um posto de gasolina para o café, abastecimento  e o planejamento da chegada ao garimpo, distante cerca de dez quilômetros daquele local. Os policiais “Geraldo BC” e Jorge Semim trafegavam à frente, no carro chapa fria e ao chegarem no restaurante, “BC” foi ao banheiro para fazer suas necessidades e aguardar os demais policiais. O policial tem que contar com a sorte, mas só ela não basta. O tirocínio, a atenção e sagacidade também fazem parte do perfil de um bom profissional de polícia, características  inerentes a Geraldo “BC” e que foram imprescindíveis naquele momento. Ele viu um homem urinando a seu lado e percebeu que estava armado. Disfarçadamente observou que na testa do cidadão tinha uma cicatriz profunda, característica principal de Ofenir Pinheiro. Geraldo BC colocou a mão em sua arma e disse:

“Polícia, você está armado?”.

O outro retrucou:

“Então empatou, também sou polícia”, tirando a velha carteira de detetive que o identificava como sendo Ofenir. Rapidamente “BC” o desarmou e chamou Semim, que o algemou e em seguida foram ao encontro dos demais policiais na estrada. Todo o planejamento caíra por terra diante da oportunidade e sorte daquela equipe de policiais. Voltaram para Belo Horizonte onde os dois presos foram interrogados e confessaram a participação em vários crimes, incluindo a chacina de Malacacheta. As circunstancias da Chacina de Malacacheta foram detalhadas por Ofenir Pinheiro.

As investidas contra o jaguncismo e os crimes de sangue no Vale do Mucuri não atingiu apenas os irmãos Nunes Leite, mas também os “Irmãos Curió”, de São João Evangelista, responsáveis por vários homicídios na região, que também se escudavam no poder político e econômico para manter-se na impunidade. Outro atingido pela investida da Polícia Civil foi Arildo Pereira Campos, o “Totó Campos”. Apesar de não terem vinculação entre si nos crimes de pistolagem e homicídios naquela região, essas pessoas traziam uma característica comum entre eles, comentada pelo delegado Otto Teixeira no período de investigações: a tradição de envolvimento em assassinatos covardes.

Irmãos Curió

Acima, os irmãos Alaércio  José dos Santos e Gil Evangelista Santos, os irmãos “Curió” e as fichas da Delegacia de Furtos e Roubos, onde ficaram presos em razão de mandado de prisão preventiva.
Irmãos Curió-Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Irmãos Curió é a alcunha pela qual são conhecidos os irmãos Evangelista dos Santos, filhos de João Evangelista dos Santos, integrantes de uma família de ricos comerciantes de São João Evangelista, Minas Gerais, que estabeleceram, entre os anos 70 e 80, um regime de terror naquela cidade, por meio da intimidação e do uso irrestrito da violência contra adversários e todos aqueles que se opunham a seus interesses políticos e econômicos. Os Irmãos Curió ganharam notoriedade após deixar um longo rastro de sangue em toda a região, foram condenados pelo Poder Judiciário do Estado de Minas Gerais, em decisões irrecorríveis, por alguns dos muitos homicídios e outros ilícitos penais praticados, sendo ainda hoje investigados por crimes cometidos nos últimos anos.
 

Totó Campos

Arildo Pereira Campos, o “Totó Campos”, era também fazendeiro naquela região do Suaçui e tinha um passado marcado pelo envolvimento em assassinatos e, como os outros, trazia consigo a fama da impunidade. Seu último crime, no entanto, o encarcerou, por ter levado sua prepotência e arrogância até a capital mineira, pelo ciúme doentio de sua mulher, cuja suspeita de adultério recaíra sobre o dentista Danilo da Mata Rocha, professor da UFMG. “Totó”, que tinha um grave problema de visão, à beira da cegueira, em razão de diabetes, usou o nome Arnaldo Ferreira Zapata para marcar consulta de orçamento odontológico com sua vítima. Com muita dificuldade foi ao consultório, deixando sua enfermeira particular no carro, uma camionete D20, estacionada nas proximidades. “Totó” Campos sentou na cadeira e quando o dentista aproximou-se à sua frente, arrancou o revólver calibre 3.57 e efetuou três disparos que atingiram mortalmente o dentista. Em seu depoimento alegou que matou em legítima defesa, não conseguindo explicar as razões de ter ido armado e fornecer nome falso para uma consulta.O assassino matou por dedução e errou o alvo pretendido, já que o suspeito relacionamento extraconjugal não existia com a vítima.

Reportagens sobre “Totó” Campos, outros dois crimes atribuídos à família Leite e as consequências da repressão policial.

“Fim de um ciclo da pistolagem. Jornal Hoje em Dia-2/12/1993.

Com a prisão do fazendeiro e empresário Arildo Pereira Campos, o “Totó Campos” de 50 anos, que assumiu o assassinato, a tiros, do dentista e professor da universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Danilo da Mata Rocha, de 45 anos, no último dia 17, em Belo Horizonte, tudo indica que chegou ao fim um ciclo de pistolagem no Vale do Rio Doce, uma vez que já estão atrás das grades, nas prisões de Minas – cadeias no interior e Depósito de Presos de Belo Horizonte-, outros nomes conhecidos do crime de aluguel, como os irmãos Leite e irmãos Curió. A prisão desses homens só ocorreu graças ao esforço do secretário de Segurança Pública José Resende de Andrade, delegado, deputado federal e um policial, que costuma dizer que não transige com duas coisas: corrupção e pistolagem.”

CAPÍTULO VII.

Repressão e Fugas Para Outros Estados.

Repressão Policial e as fugas para outros estados

Conforme é registrado, com a intensa repressão policial, através de operações, investigações dos homicídios e os consequentes mandados de prisões, a maioria dos pistoleiros e mandantes da chacina e de outros crimes iniciaram sua fuga de Minas Gerais, buscando outros estados como meio de garantir a impunidade e não responder pelos seus assassinatos. Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Pará foram alguns dos estados procurados pelos criminosos. Mas não adiantou a distancia, ou o caráter inóspito das fazendas e regiões buscadas como refúgio, pois a Polícia Civil mineira os alcançou e trouxe à luz da justiça das alterosas.

“A forte repressão feita pela Polícia Civil naquela região, provocou uma verdadeira revoada de criminosos, que se espalharam por vários outros estados, procurando refúgio. Pistoleiros notórios desapareceram do mapa e mandantes arrendaram fazendas indo para outros territórios. Os mais visados foram os estados de Rondônia, Pará e Mato grosso. Mas o crime não parou nem mesmo para os que não conseguiram escapar e foram presos.”

 

A Apuração do Assassinato de Helvécio Cordeiro

Reportagem do Jornal Diário da Tarde, de dezembro de 1992. Delegado Faria e inspetor “Carlinhos”, responsáveis pela elucidação do crime em Rondônia.

O assassinato de Helvécio Cordeiro, mais um membro da família chacinada, ocorreu em Jarú, no estado de Rondônia em dezembro de 1992 e demonstrava claramente que os Nunes Leite continuavam com sua gana em exterminar toda a família dos Cordeiro. Acreditava que em Rondônia, não seriam alcançados pelas garras da Polícia Civil mineira. Afinal, era outro estado, longe de Minas Gerais. Estavam enganados.

Apesar do crime ter se consumado em um território tão distante de Minas Gerais, fugindo completamente da competência da polícia mineira, o Secretário de Segurança Pública, à época, José Resende de Andrade, encarou o desafio imposto pela família Nunes Leite. Determinou que a investigação do homicídio fosse levada a termo pelo coordenador da RODI-Ronda Ostensiva do Departamento de Investigações, órgão que atuava em casos de maior complexidade operacional. O delegado Faria, titular da unidade e o inspetor Carlos Augusto Lima deslocaram-se para Rondônia, em uma situação inusitada, o que causou constrangimento profissional com os policiais de Jarú, que não concordavam com a presença dos dois profissionais mineiros na cidade, para a investigação do crime. O atrito só foi solucionado com a intervenção do secretário de segurança daquele estado, que ligou para o delegado regional da área, determinando que auxiliassem os policiais de Minas, que tinham carta branca para atuar em Rondônia.

Apesar da resistência, dificuldades e falta de apoio dos policiais da cidade, as investigações foram iniciadas do zero, com participação exclusiva dos dois policiais mineiros. A ocorrência que noticiava o crime não foi encontrada, inexistia o laudo de necropsia, não houve perícia. Nenhum depoimento ou qualquer diligência havia sido realizada. Nada fora feito, nem mesmo o local de crime.

O Coordenador da RODI e seu inspetor fizeram uma vistoria no local onde a vítima fora assassinada, e, apesar do transcurso de um mês após o crime, localizaram alguns projéteis propelidos pela arma do pistoleiro. Entrevistaram familiares e pessoas da cidade sobre as circunstancias do crime, identificando um fazendeiro conhecido por Pimenta, irmão de uma advogada, que teria sido namorada de Aldécio Leite. Esse fazendeiro teria abrigado o pistoleiro em sua fazenda durante o período do assassinato. Segundo os levantamentos, comentava-se que a arma utilizada no crime poderia ter sido deixada na fazenda. Os policiais arranjaram um veículo emprestado por um empresário local, do ramo de borracha e foram até a fazenda de Pimenta, onde encontraram apenas sua esposa na propriedade. Faria e “Carlinhos” foram incisivos com a mulher, ameaçando requerer sua prisão preventiva, caso seu marido não comparecesse à delegacia para levar a arma e esclarecer o crime.

Em razão da conivência do fazendeiro no bárbaro crime, os policiais não esperavam que ele os atendesse, confessasse sua participação e fizesse a entrega da prova material do assassinato, a arma. Era uma estratégia para mexer com o psicológico do fazendeiro. Contavam com sua fuga, já que não dispunham de estrutura para deslocamentos, principalmente por ser uma região perigosa e totalmente estranha para os policiais.

Realmente o fazendeiro não procurou a delegacia de Jarú conforme haviam determinado, no entanto cerca de duas horas após os policiais retornarem da fazenda, o porteiro do hotel onde estavam hospedados, chamou o delegado Faria no quarto, alegando que alguém estaria lhe esperando no saguão. O delegado posicionou sua arma de forma defensiva e desceu em direção à portaria. Para sua surpresa, era Valter Pimenta, o fazendeiro. Um homem de estatura alta e corpo avantajado que, com cara assustada, trazia um embrulho de jornal em uma das mãos. Era a arma utilizada para matar Helvécio. Faria conversou longamente com o fazendeiro, que aceitou dar o depoimento com detalhes da participação de Aldécio Leite no crime. Disse que avisou a vítima, Helvécio Cordeiro, da vinda do pistoleiro, mas ela não acreditou e a falta de credibilidade na informação custou-lhe a vida.

Após seu depoimento, Valter Pimenta disse que fugiria para os Estados Unidos, com receio de ser morto pelos irmãos Leite. De posse da arma, projétil e depoimentos, Faria e “Carlinhos” retornaram para Belo Horizonte, onde a perícia de comparação balística foi realizada com resultado positivo. O delegado da RODI representou pela prisão preventiva dos mandantes e remeteu os autos para a justiça de Rondônia, onde posteriormente foram julgados.

A Fuga e Recaptura de Aldécio Leite

Queijo, carne, cachaça, mulher e fuga

 

Cerca de três anos se passaram da prisão de Aldécio, e durante este tempo, maquinou uma forma de fugir do Departamento de Investigações. Começou seu plano aliciando alguns carcereiros que faziam sua custódia durante os plantões no Centro de Triagem. Presenteou policiais com produtos que mandava vir de suas fazendas, como queijos, cachaças, feijão e peças de boi. Bancava festas de aniversário de seus carcereiros e aos poucos foi ganhando a confiança e criando laços de “amizade” com aqueles que deveriam zelar pela vigilância, para que não ocorresse fuga. O relacionamento chegou a tal ponto de intimidade, que o improvável aconteceu. Dia 10 de junho de 1993, Aldécio Nunes Leite saiu pela porta da frente do Departamento de Investigações, com o auxílio de policiais que prestavam serviço durante o plantão da noite. Com a promessa de fornecimento de cachaça e um boi para uma festinha do filho de um policial, Aldécio convenceu os carcereiros, Nilson e Benedito, a pegarem um Chevette de propriedade do primeiro e levá-lo até a Rua Sete, Bairro Santa Helena, em Contagem, onde daria telefonemas para tratar de negócios.
Ao chegarem ao local, Nilson deixou seu colega com Aldécio, ficando de retornar daí a algumas horas para buscá-lo e foi para a gafieira Elite, na Avenida Olegário Maciel. Conforme planejara, Aldécio providenciou cerveja, cachaça e churrasco para o carcereiro Benedito, que tinha a obrigação de escoltá-lo, além de fornecer uma mulher de beleza física invejável, de nome Darcília Ferreira de Oliveira, que foi previamente contratada em Malacacheta para seduzir e despistar o policial. Aldécio deixou Benedito com Darcília, bebendo, comendo e alegou que ia para o outro quarto com Nilza Pereira Gonçalves, dona da residência. Acreditando no criminoso, o carcereiro usufruiu os carinhos da mulher enquanto Aldécio fugia pelos fundos em uma camionete que já o esperava, dirigida por “Zé Pimenta”, um elemento do Espírito Santo. Ao perceber a fuga, depois de várias horas, Benedito comunicou ao seu chefe Nilson, que chegara embriagado do Elite e esquecera-se de ir ao seu encontro. Desesperados, os carcereiros não tinham como informar seus superiores, só o fazendo por volta das 10:30 horas da manhã do dia seguinte, cerca de 13 horas após a fuga. Nesse dia, Nilton Ribeiro de Carvalho, chefe do DI, criou uma equipe especial para a captura dos irmãos Aldécio e Alírio Nunes Leite, bem como, dos pistoleiros envolvidos em seus crimes. O delegado Faria, representando a RODI, nas atividades de apoio operacional e Edson Moreira pela Delegacia de Homicídios, unidade responsável pelos inquéritos policiais foram convocados para assumir a tarefa de captura.
Com o interrogatório das mulheres Nilza Pereira Gonçalves e Darcília Ferreira de Oliveira, a equipe especial chegou até José Aleluia Pimenta, vulgo “Zé Pimenta”, que ao ser localizado e interrogado, confessou sua participação na fuga, que teria sido planejada com antecedência. Esclareceu que ao entrar na camionete, Aldécio recebeu dois dos revólveres que estavam no interior do veículo para que fossem usados contra os policiais, caso fosse necessário. Posteriormente, “Zé Pimenta” mudou de lado e tornou-se um bom informante, levando a equipe a vários locais nos estados do Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro, onde foram presos “Giramundo” (em Medeiros Neto-BA) e Ofenir (João Neiva-ES). Levou os policiais ainda, em Vassouras-RJ, na fazenda dos irmãos Avelino, de onde Aldécio e Alírio fugiram poucas horas antes da chegada da equipe de policiais. Neste caso, o dia era da caça.

Operação Pará

A Operação Pará foi realizada pelos policiais da RODI para a localização e prisão de Aldécio Nunes Leite e Eva Nilma, sua mulher, em razão de mandados de prisão da justiça de Malacacheta. Aqui, registramos detalhes da diligência em um estado totalmente inóspito e nocivo para aquele tipo de ação policial. Na tentativa de recaptura de Aldécio Nunes Leite e prisão de sua mulher Eva Nilma, foram realizadas várias diligências pelo delegado Faria, Coordenador da RODI e sua equipe. Pra os policiais era questão de honra a recaptura daquele fugitivo que saiu da carceragem do Departamento de Investigações pela porta da frente, desmoralizando todos os profissionais daquele reconhecido órgão operacional. Os delegados Faria, José Antônio Morais Barbosa e outros policiais da RODI estiveram em Vassouras, Rio de Janeiro (RJ), Rio Claro/SP, São Paulo/SP, Medeiros Neto/BA, diversas cidades do Espírito Santo e outras localidades onde obtinham notícias da passagem dos foragidos. Depois de um ano da consumação da fuga, as investigações indicaram que Aldécio Nunes Leite e Eva Nilma estariam em Rondonópolis (PA), na fazenda de Josélio Barros, fazendeiro conhecido naquela região por seu envolvimento em crimes de pistolagem, sua influência política e a impunidade. Os dois delegados, juntamente com os detetives Ilton, Joãozinho “Metropol”, Cândido, Sidney, Gilberto, Inspetor “Camarão” e “Chico”, todos lotados na RODI,  deslocaram-se em duas equipes distintas em junho de 1994 para o estado do Pará. Um grupo por terra, outro pelo ar. A equipe de terra, com “Camarão”, Joãozinho e “Chico”, deslocaram dois dias antes, em um Gol descaracterizado da SESP-MG.

Aldécio conheceu Josélio Barros em 1982, quando esteve em Imperatriz do Maranhão para contratar pistoleiros e encomendar a chacina da família Juca Peão. Com o esclarecimento do crime, Josélio providenciou a contratação do melhor advogado da região, que conseguiu o relaxamento da prisão de Aldécio, Toninho, Alírio e José leite. A partir daí se tornaram amigos.

Policiais da equipe de terra, “Chico, Ilton e “Joãozinho”, na primeira e última foto abaixo. No meio, no Pará, Ilton, “Joãozinho” e Gilberto.

Diante das costumeiras dificuldades, Faria conseguiu um avião Queen Air, BE 80, prefixo PT-B25, de um empresário conhecido por “Lucinho”, para empreender a viagem. A Secretaria de Segurança iria bancar apenas o combustível. O delegado fez contato com o então secretário, João Perfeito, que, rispidamente alegou “que existiam outras prioridades e que Nilton Ribeiro só pensava nos irmãos Leite”. A realidade não era essa, o foragido era Aldécio Leite, um dos mandantes da chacina de Malacacheta, que havia se evadido da carceragem do DI pela porta da frente, desmoralizando toda a instituição Polícia Civil. Acostumado com as vaidades de algumas chefias, Faria conversou com o empresário, dono do avião, que indignado, ofereceu-se para o pagamento do combustível. A equipe juntou suas tralhas e foram para o aeroporto Carlos Prates, onde a aeronave se encontrava. Quando Faria e os policiais José Antônio Moraes Barbosa, “Chico”, Ilton e Cândido chegaram, por volta das 13:00 horas, depararam com uma aeronave ano 67 estacionada em um Hangar para manutenção. Manutenção precária, diga-se de passagem.

Ao ver o avião, os policiais pensaram:

“Será que voa?”.

O mecânico argumentou a impossibilidade de voo naquele dia, pois estava fazendo reparo nos freios. Os policiais da RODI insistiram na decolagem por temerem perder a prisão dos pistoleiros se demorassem a chegar ao destino pretendido, conseguindo a liberação da aeronave por volta das 16:00 horas. A equipe decolou para Brasília, onde pernoitaram para prosseguirem no outro dia pela manhã. No entanto, antes de chegarem à capital do país passaram pelo primeiro susto ao entrarem numa grande tempestade, que submeteu a aeronave a turbulências e quedas no vácuo como jamais haviam visto. Era um Nimbus, tempestade que tem como característica nuvens densas e atinge grandes altitudes, acompanhada de eventos meteorológicos extremos, como trovões, muitos relâmpagos e pancadas de chuva. É formada quando há muita instabilidade atmosférica e podem aparecer sozinhas, em aglomerados ou associadas à frentes frias.

Depois do sufoco, ainda trêmulos, os policiais pernoitaram em Brasília, ficando o policial “Chico”, dentro do avião, para vigilância do armamento pesado. Pela manhã, decolaram novamente em direção ao aeroporto de Imperatriz-MA, onde iriam encontrar com a equipe de terra, que saíra dois dias antes. O sufoco do nimbus, do dia anterior viria com muito mais perigo nesse novo trecho da rota aérea. Cerca de quarenta minutos para a aterrissagem no aeroporto de Imperatriz, o piloto “Miltinho” passou o comando da aeronave para um Sargento PM que estava ali, como “aprendiz de copiloto”, e foi se juntar aos policiais que jogavam baralho na parte destinada aos passageiros. De repente, ouviu-se um barulho estranho, um estalo e uma guinada para a direita, com a aeronave iniciando uma descida de bico. Era uma visão pavorosa a aproximação da terra com muita velocidade. “Miltinho” rapidamente se jogou em direção à cabina do avião e após alguns segundos, que parecia uma eternidade para os policiais, conseguiu estabilizar a aeronave, quando a mesma já estava a uma distância perigosa do solo. Silêncio total, após a gritaria, lembrança de Deus e todos os santos.

Ainda tenso, o piloto explicou que acabara o combustível de uma das asas e o copiloto, que fazia testes de pilotagem na aeronave, esqueceu-se do procedimento de fazer a transferência para o outro tanque, entrando em pânico quando o avião mergulhou no espaço vazio, causando o incidente. Desceram ainda trêmulos no aeroporto de Imperatriz, onde a diligencia era prevista para cerca de 24 horas. Durou três dias.

O encontro no aeroporto de Imperatriz (MA), entre as equipes de terra e ar, ocorreu dois dias após o deslocamento da primeira equipe, acerca de 300 quilômetros da fazenda de Josélio Barros. Dario Rodrigues/Cordeiro, foi recepcioná-los no aeroporto e os levou para sua fazenda em Ulianópolis (PA). Dario era membro da família Cordeiro, chacinada na fazenda Canadá, em Belo Horizonte (Humberto) e em Jarú/Rondônia (Helvécio) e tinha interesse na prisão dos mandantes dos crimes. Alojou os policiais em sua fazenda onde permaneceram durante três dias para a realização do planejamento, levantamento de local e mapeamento de estradas de terra para chegarem à fazenda que seria invadida durante a madrugada. A propriedade de Dario ficava próxima da rodovia, com uma grande casa que servia como sede e outra, ao lado, abrigava os policiais. Com toda a operação desenhada e data marcada, Dario conseguiu comprar um veículo Gol com chassi cortado, possivelmente roubado, para ajudar na investida a fazenda de Josélio. Entregou as chaves e disse para os policiais:

“Quando terminar o trabalho, podem dispensar o carro, isso é cabrito.”

Para os policiais não havia muita escolha naquela situação: “cavalo dado não se olha os dentes”.

Policiais da RODI: Gilberto, Jorge “Camarão” e Joãozinho “Metropol” na fazenda de Dario Cordeiro, antes do início da operação. Josélio Barros, dono da fazenda onde Aldécio estava escondido.

Foram três dias tensos na fazenda de Dario, diante da expectativa de serem percebidos. Usavam a fazenda para caminhadas e relaxamento nos aguapés, enquanto aguardavam o momento da ação. Dario já havia sofrido um atentado a tiros, poucos dias antes e contratara três jagunços para fazer a sua segurança e da família na fazenda. Além do temor das informações levantadas que indicavam a chegada de novos pistoleiros na fazenda de Josélio. Por volta das 23:00 horas do dia 8 de junho de 1994, os policiais da RODI deslocaram-se nos dois veículos Gol, percorrendo cerca de 60 quilômetros de asfalto, até entrarem em uma estrada de terra que liga Ulianópolis a Paragominas. Os policiais, usavam coletes convencionais, usados à época e alguns se protegiam com a proteção balística, além do armamento pesado. Na madrugada, os policiais faziam paradas esporádicas à beira da estrada, em fazendas ou casebres, onde perguntavam pela fazenda do prefeito.

Nos levantamentos apurou-se que a fazenda de Josélio Barros era a primeira antes da propriedade do prefeito de Uilianópolis, portanto, a estratégia era perguntar pelo chefe do executivo local, para se chegar ao alvo. Eram cerca de 3 horas da madrugada quando chegaram em uma fazenda qualquer à beira da estrada, acordaram os moradores aos gritos de “polícia” e ao serem atendidos, apresentaram a fotografia de Aldécio Nunes Leite para dois homens que estavam na casa. Ele foi imediatamente reconhecido por um dos dois homens, como sendo “Souza”, o gerente da fazenda de Josélio. Informaram que faltavam cerca de doze quilômetros para chegar à propriedade. Naquele momento a adrenalina subiu, diante da informação que indicava estarem no caminho certo. A partir daquele local, o coordenador da operação determinou que os carros fossem estacionados e que “Miltinho”, o piloto, deslocasse pela estrada após duas horas e meia, tempo previsto para o invasão da fazenda.  A partir dali, os policiais iniciaram uma caminhada que durou quase três horas até o local do alvo. O delegado Faria não queria que o barulho dos carros e faróis colocasse a operação em risco. Naquela região amazônica, qualquer som e luzes nas madrugadas são percebidos à longa distancia.

Policiais da RODI em momento de descontração no Pará, algumas horas antes da operação. Equipe RODI. “Chico” e Ilton durante a viagem.

Aproximadamente 5:30 da manhã, os policiais avistaram a fazenda e foram recepcionados pelos cães que a guardavam, e, por golpe de sorte, não latiram, avançaram, ou mostraram qualquer movimento de agressividade. Caso contrário, os obrigaria ao anúncio de suas presenças pelos tiros que certamente seriam disparados. Ao cercarem a sede, ouviu-se o barulho de tiros disparados de seu interior. Os policiais revidaram e entraram na casa, onde todos foram dominados. Duas mulheres e cinco homens. Outros foram vistos fugindo pelo mato enquanto tiros tentavam alcançá-los. Cândido, detetive da RODI, levou um tiro no peito, mas o colete balístico o salvou. Ao identificarem as pessoas que estavam na fazenda, os policiais perceberam que o objetivo havia sido alcançado. Aldécio estava ferido por três tiros de metralhadora. Eva Nilma se encontrava no local. Josélio Barros, desnorteado com a ação policial, também estava na fazenda, junto com outros homens, que seriam de Governador Valadares. Uma grande quantidade de armas e munições foi apreendida no local, após rápida vistoria. Os policiais não podiam permanecer por muito tempo naquele local.

Aldécio foi colocado na traseira de uma camionete D-20 de sua propriedade, que estava na fazenda e Eva Nilma no Gol, junto com material apreendido. Josélio e as pessoas que estavam em sua companhia, após serem desarmados, foram deixados no local. O objeto da diligência era a o cumprimento dos mandados de prisão contra os mandantes de crimes de pistolagem, Aldécio e Eva Nilma. Não interessava se os demais eram pistoleiros ou não.

Na saída da fazenda, em direção à Ulianópolis e Imperatriz do Maranhão, por precaução e estratégia, os policiais dispararam tiros contra os pneus dos demais veículos que estavam estacionados próximos à sede e cortaram todo tipo de comunicação, atirando também nas antenas de recepção de radioamador. Os policiais e os presos foram divididos nos três carros, os dois GOL e a D20 de Aldécio. Saíram em alta velocidade do local, deixando um rastro infernal de poeira, que sufocava os ocupantes dos veículos que trafegavam atrás no comboio. As estradas de terra, naquele período de estiagem, formavam uma espessa camada de poeira bem fina, que gerou a “quebra” no motor do GOL fornecido por Dario, obrigando a equipe que o conduzia a parar no meio da estrada, o que não foi percebido imediatamente pelos demais policiais que estavam nos outros dois carros à frente, tal a nuvem de poeira levantada como rastro.

A equipe de vanguarda, ao chegar ao asfalto, esperou cerca de dez minutos pelo Gol que não apareceu. Faria determinou que a camionete prosseguisse até o aeroporto de Imperatriz e retornou pela estrada de terra para tentar localizar os companheiros perdidos. Depois de cerca de 20 quilômetros, viram os policiais com o veículo quebrado à beira da estrada. Sete policiais vieram acotovelados dentro do Gol descaracterizado até encontrarem novamente com a camionete, abandonando o carro em pane. Próximo ao aeroporto, a camionete que levou Aldécio na carroceria, também teve problema mecânico, causando um atraso de cerca de duas horas de muita tensão. A expectativa era de que policiais pudessem interceptá-los, uma vez que estavam naquele estado sem autorização formal. Além do detalhe levantado, indicando que a filha de Josélio Barros, era a promotora de justiça na região e o quartel da PM estava instalado em um imóvel de sua propriedade. Era um grande problema se fossem alcançados.

Depois de conseguirem sanar o defeito no motor da camionete, prosseguiram na jornada até estacionarem os dois carros no aeroporto de Imperatriz do Maranhão. Lá, tiveram que permanecer mais tempo aguardando, estimado em torno de meia hora, devido a movimentação de soldados do exército na pista do aeroporto, próximos da aeronave Queen Air, BE 80, PT-B25 . A primeira impressão era que estavam ali aguardando os policiais de Minas, mas depois de algum tempo perceberam que faziam manobras militares de treinamento. De qualquer maneira não podiam chegar até a aeronave, sem que os militares percebessem que transportavam um homem ensanguentado pelos ferimentos à bala. Depois que os soldados do exército entraram em seus veículos e saíram do local, os policiais de Minas foram para a pista.

Aldécio e Eva Nilma foram colocados no avião, juntamente com os delegados Faria e José Antônio, além dos investigadores “Joãozinho”, Cândido e Sidney. Na pressa de sair do Maranhão, o piloto levantou voo, enquanto o inspetor “Camarão”, “Chico” e Ilton faziam o deslocamento por terra em direção ao sudeste. Neste ínterim, o piloto pediu sua bolsa de couro que estava na traseira do avião e quando a pegaram, perceberam que era a mochila de um dos policias que estavam indo no Gol, por terra. Sua bolsa havia sido trocada e não tinha como retornar para desfazer o erro. Como era um avião antigo, o piloto guiava-se pelo GPS móvel que estava em sua bolsa. Em terra. Meio às cegas, a viagem prosseguiu guiada pela experiência de “Miltinho”. A camionete usada na diligência foi abandonada no próprio aeroporto e a equipe de terra saiu em alta velocidade do local. Na pressa, o inspetor Jorge “Camarão” também esqueceu debaixo do banco da D20, a pistola 45 que o delegado Faria lhe emprestara. Alguns dias depois, policiais federais que foram acionados no aeroporto de Imperatriz, fizeram contato com o delegado e devolveram a arma “esquecida” através do DPF de Minas.

Fotos da aeronave ao chegar no aeroporto Carlos Prates e reportagens, no retorno da diligencia no Pará.
Durante o percurso aéreo, Aldécio passou muito mal e o delegado Faria mandou o piloto fazer um pouso de emergência na cidade mais próxima que encontrasse em seu plano visual. Depois de cerca de 40 minutos de voo cego, “Miltinho” conseguiu localizar Barreiras (BA), onde pousou a aeronave para que o preso fosse socorrido. Em Barreiras, Faria comunicou a diligencia ao delegado local e ao comandante da PM que auxiliaram e colocaram escolta no hospital, onde Aldécio foi submetido a uma cirurgia. O juiz da cidade, ao tomar conhecimento da diligência, ficou melindrado por não ter sido avisado pelos policiais de Minas, que sequer conheciam a cidade e já tinham avisado às autoridades competentes, que por sua vez, o avisaram. Os policiais foram retidos (se é que esta punibilidade existe), os presos Aldécio e Eva Nilma passaram a ser de responsabilidade da justiça daquela comarca. O juiz ainda determinou que a PM cercasse a aeronave e impedisse sua decolagem. Por três dias a equipe de Belo Horizonte permaneceu naquela cidade, impedidos de prosseguir a viagem. Os próprios policiais civis e militares de Barreiras ficaram constrangidos com aquela decisão prepotente e arbitrária do juiz.

Não existia processo contra os policiais mineiros, nenhuma medida cautelar, sequer foi determinada qualquer diligencia. Apenas o ego ferido de um magistrado. Só existia uma ordem verbal, que segundo as informações dos policiais locais, embasada no interesse do magistrado pela presa Eva Nilma. Faria fez contato com sua chefia em Belo Horizonte e esclareceu a situação, ocorrendo a interferência de autoridades de Belo Horizonte junto ao Tribunal de Justiça e Corregedoria de Justiça de Salvador. Os policiais mineiros foram então liberados para retornarem a BH com os dois presos.

Texto embasado no depoimento piloto “Miltinho” na viagem ao Pará, testemunha que acompanhou todas as etapas da diligência e morreu pouco tempo depois, em um acidente aéreo com outro avião que pilotava. Seis meses após o retorno da diligencia exitosa, o mesmo avião caiu próximo à cidade de Turmalina e matou seus cinco ocupantes que morreram carbonizados, dentre eles, “Lucinho”, empresário que emprestou a aeronave, bancou o combustível da viagem e as diárias da tripulação.

 

Aldécio ia para a fazenda

“O fazendeiro Aldécio Nunes Leite, 46 anos, um dos mandantes da Chacina de Malacacheta, preso segunda feira em uma fazenda no interior do Pará, por policiais da Ronda Ostensiva do Departamento de Investigações (RODI) disse ontem que pretendia fugir para o México. Atingido por balas de metralhadora, Aldécio foi internado em estado grave quarta feira à tarde no hospital do Pronto Socorro (HPS), logo após chegar de avião escoltado pela equipe comandada pelo delegado Antonio Carlos de Faria.” … Ele disse que nós, policiais tivemos muita sorte ao prendermos ele e sua mulher, pois na próxima semana iria fugir para o México, onde havia, recentemente, comprado uma fazenda… Jornal Estado de Minas-Polícia – 16/6/1994.”

 Morte de Dario Cordeiro

Em 1994, Dario Cordeiro foi de grande importância para a prisão de Aldécio Nunes Leite e sua mulher Eva Nilma Rocha, em Ulianópolis, no Pará, pelo apoio logístico que forneceu aos policiais, conforme registrado no artigo anterior. As equipes de Belo Horizonte permaneceram na fazenda de Dario durante cerca de três dias, conseguindo mapear a região e chegar até a fazenda de Josélio Barros, onde Aldécio se escondia usando o nome de “Souza”. Foi até Imperatriz buscar parte dos policiais e comprou um veículo Gol para a diligência, orientando que após a incursão poderiam abandoná-lo por ser carro trepado. Depois do retorno para Belo Horizonte, Dario procurou os policiais na RODI, pedindo homens para fazer sua segurança, pois já havia sofrido um atentado na fazenda e temia ser morto em razão da prisão de Aldécio, o que desmoralizou Josélio na região. Foi orientado no sentido de sair de Ulianópolis com sua família o mais rápido possível, pois Josélio Barros tinha descoberto sua participação na captura de Aldécio e por seu currículo repleto de assassinatos, não havia dúvida que iria mandar matá-lo. Pouco tempo depois Josélio Barros sofreu um atentado quando estava em sua camionete na estrada que ligava sua fazenda à rodovia. O tiro passou de raspão, atingiu o banco do motorista e a tentativa de homicídio foi atribuída a Dario Cordeiro. Dias após, um homem apareceu na serraria de Dario para comprar madeira e após alguns minutos de conversa foi até o veículo Gol que dirigia, apanhou uma pistola 9 mm e a descarregou em Dario, que teve morte instantânea. Renato, sogro de Dario, que também auxiliou os policiais mineiros, foi assassinado algumas semanas depois, juntamente com seu segurança, um investigador do Pará. A suspeita dos crimes recaiu sobre Josélio Barros e Aldécio Leite.

A prisão de Alírio Leite em Vassouras-RJ.

No final de dezembro de 1999, o delegado Faria exercia o cargo de Superintendente Metropolitano, quando recebeu uma carta anônima que avisava estar correndo risco de vida, por causa da prisão de Aldécio Leite em Rondonópolis. A pessoa informava que Alírio Leite havia vendido uma camionete para um pistoleiro do Rio de Janeiro e em troca ele iria  matar o policial. O denunciante, em sua carta apócrifa, dava coordenadas do local onde Alírio possivelmente estaria, em Maçambará – um lugarejo no município de Vassouras/RJ. Apesar do anonimato,  o delegado entendeu que a carta merecia credibilidade, por que no ano de 1993, quando era chefe da 4ª Delegacia Especializada de Furtos e Roubos, fez uma diligência com sua equipe à fazenda dos Irmãos Avelino, em Vassouras, para prender Aldécio, Eva Nilma (sua esposa) e Alírio que estavam naquela região. Quando estouraram a fazenda, descobriram que eles tinham saído no dia anterior, achando alguns documentos manuscritos pelos Leite, que comprovava a presença naquela fazenda. Os irmãos Avelino eram muito conhecidos pelo envolvimento em pistolagem, sendo personagens de uma reportagem do Fantástico, por seus crimes. O delegado não sabia se havia algum fundamento na ameaça contra sua vida, ou se o denunciante queria que Alírio fosse preso.

Voltando a 1999, Faria chamou Márcio Siqueira, delegado de operações da Metropol, os detetives Gilson, Gilberto, Anderson, Daniel, Marquinho e “Chico” da Divisão de Tóxicos para traçar a estratégia de chegar ao distrito de Maçambará, próximo de Vassouras. Os levantamentos para verificar as informações descritas na carta não poderiam levantar suspeitas pela presença de estranhos naquela região rural do estado do Rio. O Superintendente conseguiu uma camionete S-10 e duas motos de trilha emprestadas pelo delegado Élson Matos, chefe do DEOESP. “Chico” e Anderson foram na cabine do veículo e Gilson Costa deitado na carroceria, ao lado das duas motos. Naquele mês de dezembro ocorreram chuvas torrenciais, com a mídia noticiando várias inundações no Rio de Janeiro, mais especificamente nas cidades que margeiam o rio Paraíba do Sul, região de Vassouras. Faria elaborou um modelo de planilha da Defesa civil do Rio de Janeiro e orientou aos policiais que fossem até a localidade denominada Maçambará, se identificassem como funcionários do órgão e questionassem os moradores do local sobre os problemas e perdas causadas pela enchente.

A missão foi um sucesso. Os policiais “Chico”, Gilson e Gilberto munidos de pranchetas, filmadora, máquina fotográfica foram para a região inundada com a cobertura de detetives que ficaram na retaguarda em Juiz de Fora. Conversaram com várias pessoas do local, entraram em várias casas, inclusive na que estaria Alírio Leite e constataram que um indivíduo conhecido por “Roberto”, frequentava a região, porém em razão das chuvas, encontrava-se fora e voltaria no carnaval. A equipe retornou para Belo Horizonte e na sala de reuniões da Metropol verificaram as fotos da casa, as filmagens no lugar e fizeram o planejamento para voltarem no carnaval, cerca de dois meses após o primeiro levantamento. Era um jogo de paciência.

Aproximando o carnaval, os policiais descobriram que “Roberto”, na verdade era Alírio Leite e iria chegar na cidade juntamente com um pistoleiro conhecido por “Barra Longa”. No mês de março de 2000, o delegado Márcio Siqueira e os policiais Gilson Costa, Gilberto, Anderson Pinto de Melo, Marco Aurélio Matos, Edson Eustáquio, João Batista, Cleyson e “Carlão” foram incumbidos por Faria a ir, pela terceira vez, à Maçambará. Na madrugada do dia 6 de março de 2000 estouraram uma casa de fazenda, dentro das propriedades dos irmãos Avelino, próxima à cidade de Aliança, onde prenderam Alírio Nunes Leite que portava um revólver calibre 38. Era o último preso, de uma família, que desde os anos 50 matavam no Vale do Mucuri. Ali terminava a saga de fuga e prisões dos irmãos Leite.

As fotos acima registram os policiais Gilson Costa, Anderson Pinto, “Chico”, Cleyson, João Batista, Edson, “Carlão” e o delegado Márcio Siqueira nas investigações em Maçambará, Aliança/RJ e na sede da Superintendência Metropolitana com o preso Alírio Nunes Leite.

O Sequestro e Morte de Nelson Jardim

Nelson Jardim foi um dos partícipes da emboscada e assassinato de “Toninho” Leite, conforme registrado na Parte I dessa saga. Foi condenado, foragiu-se e depois recapturado. Alegou que fugiu por estar temeroso pela sua vida em razão de ameaças por parte da família Nunes Leite. Era de se esperar que qualquer pessoa envolvida na morte de “Toninho” Leite estivesse em uma lista de marcados para morrer. Os irmãos Leite, com tantos assassinatos nas costas, certamente iriam querer vingar o irmão, desde que tivessem oportunidade para isso. E a chance chegou quando Nelson Jardim foi recambiado para cumprimento de pena na Penitenciária de Neves, onde Aldécio também se encontrava e arquitetou sua morte. A íntegra do assassinato de Nelson Jardim está no artigo “Homicídio Sem Corpo”, um dos mais visitados deste site. Abaixo, trecho do relatório final do IP que apurou o homicídio.

Em outubro de 2007, NELSON JARDIM passou a desfrutar do regime semi-aberto e, por conseguinte ganhou autorização para saída temporária. Em 12 de outubro de 2007 saiu pela primeira vez para passar uma semana com sua família.

Em 22 de dezembro de 2007, num sábado, agora pela terceira vez, saiu para passar outra semana com sua família. Saiu do estabelecimento penal às 10 horas da manha. De um telefone público localizado em frente à Câmara Municipal, 3625-5080, às 10h12 min. efetuou uma ligação para sua esposa Geralda Aparecida Cordeiro Jardim, v. “Cida”, dizendo que já tinha saído e estaria aguardando próximo a umas barraquinhas existentes próximo à Câmara Municipal e a uma guarita da própria Penitenciária. Também efetuou uma ligação para um amigo seu, CLAUDIO, v. “Claudinho” dizendo que estaria o esperando para que fosse buscar-lhe…

Dessa forma, pelo exposto e por mais que dos autos constam, provada está a materialidade e a autoria do crime de homicídio com a ocultação de cadáver, sendo vítima NELSON ANTÔNIO JARDIM. Pelo que indiciamos: ALDÉCIO NUNES LEITE, FABIO ELIAS DOS SANTOS, FERNANDO LUIZ CÂNDIDO, JAIR VICENTE DA SILVA, CRISTIANO MAGELA DO NASCIMENTO e MARIA ELENE RIBEIRO DE SOUZA LEITE, v. EXA, nas sanções do art. 121, § 2º,incisos I e IV e 211 do Código Penal. Sendo assim, submetemos o presente feito a Douta e Elevada apreciação de Vossa Excelência como também do Ilustre Promotor de Justiça.

    Respeitosamente,

    Belo Horizonte, 25 de fevereiro de 2010.

                                                                                             

                  João Otacílio da Silva Neto                                                    Bruno Tasca Cabral                                              Denílson dos Reis Gomes

          Delegado de Polícia – Masp 343.821                            Delegado de Polícia – Masp 1.145.098                     Delegado de Polícia – Masp 275.855″

O documento completo pode ser pesquisado no artigo: http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/decadas/239-crime-sem-corpo

Capítulo VIII.

Os Julgamentos

O Julgamento pelo Assassinato de Helvécio Cordeiro, em Jarú – Rondônia.

O julgamento em Rondônia, na comarca de Jarú, teve uma série de dificuldades burocráticas para seu desfecho. Na primeira data de julgamento, o juiz de Jarú ligou para o delegado Faria, informando que havia encaminhado a requisição, mas que estava ligando pessoalmente, para que o policial empenhasse em estar presente no plenário. Faria concordou em ir, desde que a Secretaria de Segurança efetuasse o pagamento antecipado das suas diárias e passagem aérea à aquele estado. Existia uma grande dificuldade neste contexto, já que o secretário de segurança não era José Resende de Andrade e os interesses em relação à pistolagem debelada não eram mais prioridade. Diante desse obstáculo, o juiz teve que anular o julgamento, marcando outra data, quando novamente fez contatos com a secretaria, que desta vez concordou em bancar as despesas do delegado/testemunha. Tudo pronto,passagens aéreas marcadas e novo problema surgiu. Desta feita, em razão de entraves burocratas e da defesa para que o réu fosse recambiado para Rondônia. O julgamento foi desmarcado pela segunda vez. Apenas na terceira vez de agendamento é que foi possível o recambiamento e o comparecimento do delegado Faria para que, por fim, Aldécio Leite fosse julgado.

Faria foi ouvido em audincia por ter realizado todas as diligencias para apuração do homicídio de Hevécio Cordeiro e demonstrou cabalmente que suas investigações e as provas carreadas, eram irrefutáveis.

Ao ser ouvido, Aldécio declarou-se inocente e em sua defesa declarou:

Isso é uma montagem da polícia, notadamente do Dr. Faria e do chefe de polícia de Belo Horizonte, chamado Nilton Ribeiro. Esses dois perseguem a minha família. Nilton foi colocado na polícia através de Vander Campos, o qual era político”.

“Ofenir era meu amigo de frequentar a casa um do outro, mas depois virou um robô do Dr. Faria. Ele é manipulado por esse delegado para cometer o crime de falso testemunho”.

 “Polícia é polícia e um vai defender o outro”.

“Que foi preso lá no Pará, onde foi metralhado, onde tiros lhe acertaram, onde não teve chance de se defender, acertando tiros por todo o seu corpo, mas Deus lhe ajudou”.

Os argumentos usados para se defender não surtiram efeito. Aldécio foi condenado à dezenove anos de prisão pelo assassinato de Helvécio Cordeiro.

O Julgamento da Chacina de Malacacheta

O desfecho para a família Nunes Leite não foi dos melhores por todos os crimes que cometeram. Aldécio perdeu Helenísio Nunes Leite, seu filho de 14 anos. José, Aldécio e Alírio perderam o irmão Toninho Leite além do gado e grande parte do patrimônio em razão de suas prisões, pagamentos de honorários advocatícios e os roubos nas propriedades, pelo abandono. Aldécio Nunes Leite foi condenado no Fórum Lafaiete da Capital ao total de 133 anos de prisão pela chacina de Malacacheta por articular o plano para matar as sete pessoas da família Cordeiro de Andrade. Segundo as provas Aldécio teria contratado os seis pistoleiros que usando coletes da Polícia Civil invadiram a fazenda Canadá e mataram a indefesa família, que lhes abriram as portas e serviram o café da manhã com queijo, pensando tratar-se de policiais. Pela acusação foi dito que os irmãos Nunes Leite são responsáveis por pelo menos 46 assassinatos, não só no Vale do Mucuri, como também em outras cidades de Minas Gerais e estados da federação, dentre eles Pará, Maranhão e Rondônia. O julgamento pela Chacina de Malacacheta foi transferido para Belo Horizonte por determinação da Justiça de Malacacheta, que considerou a influência da família Leite na comunidade local.

Reportagens: “Pistolagem. Nunes Leite alegam inocência”. “Sequestro de Humberto. Justiça ouve três Nunes Leite”. “Pistolagem. Irmãos Nunes Leite condenados a 57 anos”.

Alírio Nunes Leite, já com seus 70 anos de idade foi condenado a um total de 126 anos de prisão em regime fechado pela Chacina de Malacacheta ocorrida em 1990. Alírio foi julgado em Belo Horizonte pelo julgamento ter sido desaforado a pedido do Ministério Público pelas razões que já conhecemos de intimidação de testemunhas e jurados na região do Vale do Mucuri. O juiz do 1º Tribunal do Júri, Alexandre Magno Mendes do Vale o condenou a pena de 18 anos de reclusão por cada uma das mortes e não lhe concedeu o direito de aguardar em liberdade por já estar preso na Casa de Detenção Antonio Dutra Ladeira, em Ribeirão das Neves, em cumprimento de pena por outro homicídio. O promotor que atuou na acusação foi Marino Cotta Martins Teixeira Filho, que por coincidência tem o mesmo final de nome do delegado Otto Teixeira Filho que atuou nas investigações da Chacina. O promotor pediu a condenação de Alírio Leite pelo crime de homicídio, qualificado por motivo torpe e recurso ardiloso que dificultou a defesa, já que os pistoleiros se passaram por policiais civis e levaram as vítimas para local onde não pudessem fugir. Na defesa de Alírio Leite atuaram os advogados José Maria Mayrinck e seu filho Marcelo Vieira Chaves.

José Nunes Leite foi absolvido pela Chacina de Malacacheta por falta provas, tendo, no entanto permanecido longo tempo na cadeia por outros crimes. Atualmente encontra-se em liberdade.

Mandante de chacina em Minas é condenado a 126 anos de prisão

http://www.conjur.com.br

O fazendeiro Alírio Nunes Leite, acusado de ser um dos mandantes da Chacina de Malacacheta, em fevereiro de 1990, está obrigado a cumprir pena de 126 anos de prisão, em regime fechado. A decisão é do juiz Alexandre Mago Mendes do Valle, do I Tribunal do Júri de Belo Horizonte, Minas Gerais. Cabe recurso.

O juiz estipulou pena de 18 anos de reclusão, pela morte de cada uma das sete vítimas, com base na decisão dos jurados que consideraram o fazendeiro culpado pelo crime de homicídio qualificado, por motivo torpe e recurso que dificultou a defesa das vítimas.O juiz aplicou o somatório das penas, tornando-a definitiva em 126 anos com base no artigo 69 do Código Penal Brasileiro.

De acordo com a denúncia, o crime foi motivado por disputa de terras entre duas famílias da cidade mineira de Malacacheta, a Nunes Leite e a Cordeiro de Andrade. O crime aconteceu em 15 de fevereiro de 1990, quando sete integrantes da família Cordeiro de Andrade foram executados com vários tiros à queima-roupa e armas de diversos calibres.

O promotor Marino Cotta Martins Teixeira Filho sustentou que os irmãos José, Adélcio e Alírio Nunes Leite foram os mandantes do crime, contratando os pistoleiros. Ele pediu a condenação de Alírio Leite pelo crime de homicídio qualificado, porque os pistoleiros se passaram por policiais civis e levaram as vítimas para local onde não pudessem fugir.

Outros acusados

Adélcio Nunes Leite já havia sido condenado a uma pena acumulada de mais de 100 anos de prisão. Um terceiro acusado de ter ajustado o crime com os pistoleiros, José Nunes Leite, foi absolvido. Nenhum dos pistoleiros foi a julgamento.

Alírio Nunes Leite já foi condenado a 16 anos de prisão por outro crime e cumpria a pena em regime aberto na penitenciária Dutra Ladeira, em Ribeirão das Neves. Em sua decisão, o juiz determinou que o réu aguarde preso o recurso de apelação, que já foi interposto pelos advogados de defesa na própria sessão do júri.

O julgamento pela Chacina de Malacacheta foi transferido para Belo Horizonte por determinação da juíza, que considerou a influência da família Leite em Malacacheta.

Processo nº 02401113736-1

em.com.br

Justiça nega liberdade a acusado de Chacina de Malacacheta, Crime macabro completa 22 anos em fevereiro. Seis criminosos executaram a tiros sete pessoas da família Cordeiro Andrade por rivalidade e disputa de terras.

Luana Cruz – Publicação: 16/01/2012

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou pedido de liberdade Aldécio Nunes Leite, acusado de ser o mandante da Chacina de Malacacheta, que completa 22 anos em fevereiro. Além de concessão de indulto, o habeas corpus impetrado no STJ pedia a extinção da punibilidade, que também foi indeferida. De acordo com a denúncia, seis criminosos executaram a tiros sete pessoas da família Cordeiro Andrade, por conta de um desentendimento com parentes desse mandante. O crime aconteceu na Fazenda Canadá, Região do Vale do Mucuri. A motivação por trás da rivalidade seria uma briga por terras.
Dia do crime
A macabra história ocorreu em fevereiro de 1990, mas teve início alguns meses antes, em novembro de 1989. Um homem de cada família discutiu no trânsito de Malacacheta. Devido à briga, a família de Aldécio Nunes Leite contratou o pistoleiro Alvino Alves Pereira para executar um integrante do clã dos Cordeiro, mas o homicida foi morto pela família rival antes de apertar o gatilho. Ao saber disso, Hamilton Leite, amigo do pistoleiro, jurou vingança. Seis homens, dentre eles Ofenir Pinheiro Machado e Hamilton Leite, trajando, cinco deles, coletes pretos da Polícia Civil e se identificando como policiais de Belo Horizonte disseram estavam apurando a morte do pistoleiro e abordaram José Augusto de Andrade. O grupo levou a vítima até a casa de um parente, onde se encontravam a empregada da família e outros sete Cordeiros. Assim, foi dado início ao ritual macabro, com a execução das vítimas, de forma cruel em diversos compartimentos do imóvel e até no quintal. Apesar das sete mortes, três pessoas conseguiram fugir e relataram a matança ao promotor e a policiais. Depois dos tiros, os seis acusados fugiram, mas foram detidos. Os julgamentos aconteceram no decorrer da década de 90 e anos 2000. Cinco réus foram condenados e apenas um absolvido.

http://blogdobanu.blogspot.com.br  – terça-feira, 17 de janeiro de 2012

 Por vingança, Nelson Jardim teria matado Toninho Leite, em abril de 1990, acusado de mandante da Chacina. Por este crime, Nelson foi condenado e pegou 12 anos de prisão.O último a ser condenado foi Fábio Elias dos Santos, em 28.03.2008, que pegou 45 anos de prisão em regime fechado. Ele foi acusado de participar da Chacina de Malacacheta. Segundo a denúncia, Fábio e outros cinco homens teriam executado sete pessoas de uma família Cordeiro.

As fotos e reportagens acima registram: Prisão dos irmãos José e Aldécio em 1990, no Departamento de Investigações. “Pistoleiro da Chacina de Malacacheta nega crimes”. Justiça aperta os Nunes Leite e seus jagunços”
Abaixo síntese da decisão da apelação criminal que negou provimento.

APELAÇÃO CRIMINAL

Fábio Elias no dia de seu julgamento.

Vistos etc., acorda, em Turma, a 1ª CÂMARA CRIMINAL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, incorporando neste o relatório de fls., na conformidade da ata dos julgamentos e das notas taquigráficas, EM NÃO PROVER OS RECURSOS.
Belo Horizonte, 23 de junho de 2009.
DESª. MÁRCIA MILANEZ – Relatora
NOTAS TAQUIGRÁFICAS
A SRª. DESª. MÁRCIA MILANEZ:
VOTOFÁBIO ELIAS DOS SANTOS, qualificado nos autos, foi denunciado, processado e pronunciado como incurso nas iras do artigo 121, §2º, incisos I, III e IV (por sete vezes), c/c os artigos 69 e 29, todos do Código Penal.
Segundo consta da inicial, o denunciado, juntamente com terceiras pessoas, efetuou disparos de arma de fogo em José Augusto de Andrade, Eunice Augusta Cordeiro de Andrade, Nacip Augusto Cordeiro de Praga, José Sexto Neto, Núbia Floripes de Andrade, Geraldo Augusto Cordeiro e José Augusto Cordeiro, causando-lhes a morte.
Narra-se na denúncia de fls. 05/08 e no aditamento de fls. 855/859 que o crime, ocorrido no dia 15 de fevereiro de 1990, por volta das 06h30min, na Fazenda Canadá, localizada no Município de Jaguaritira, Comarca de Malacacheta, teve a autoria intelectual dos irmãos Adélcio Nunes Leite, Antônio Nunes Leite (falecido), José Nunes Leite e Alírio Nunes Leite, e, como autores materiais, os denunciados Ofenir Pinheiro Machado, Fábio Elias dos Santos, Hamilton Leite Costa, v. ‘Carlão’ (falecido), Gilberto Marçal da Rocha, v. ‘Gilberto Cabelo Seco’, Joel de Tal e Adélcio de Tal, contando ainda com a participação de Ely Barbosa Couy, Rogério de Souza Couy (absolvidos), de Elenísio Nunes Leite, v. ‘Leno’ (falecido) e também de Israel Ferreira Paulino, este quatro últimos ficando de guarda na estrada, nas imediações do local do crime.
Consta do aditamento:
“Conforme já narrado na peça vestibular, o crime foi perpetrado a mando também dos ora denunciados JOSÉ NUNES LEITE e ALÍRIO NUNES LEITE, que juntamente com seu irmão, o já denunciado ADÉLCIO NUNES LEITE, uniram-se em comunhão de propósito, tendo como fim o extermínio da família ‘CORDEIRO ANDRADE’. Para tanto, valeram-se dos denunciados OFENIR PINHEIRO MACHADO, FÁBIO ELIAS DOS SANTOS, o ora denunciado GILBERTO MARÇAL DA ROCHA, v. ‘Cabelo Seco’, o indivíduo conhecido por ADÉLCIO DE TAL, ora denunciado, do indivíduo JOEL DE TAL, também ora denunciado e ainda do falecido HAMILTON LEITE COSTA, v. ‘Carlão’, todos estes 06 (seis) adentraram na residência da vítima JOSÉ AUGUSTO DE ANDRADE, v. ‘Zé de Andrade’, onde deram cabo da vida das 07 (sete) infelizes vítimas. Enquanto isso, as imediações da casa eram guarnecidas pelos denunciados ELY BARBOSA COUY, ROGÉRIO DE SOUZA COUY, pelo ora denunciado ISRAEL FERREIRA PAULINO e ainda o elemento ELENÍSIO NUNES LEITE, v. ‘Leno’, já falecido” (…).
Submetido a julgamento popular nesta Capital, restou o acusado Fábio Elias dos Santos condenado como incurso nas iras do artigo 121, §2º, incisos I, III e IV, c/c os artigos 29 e 69 (por sete vezes), todos do Código Penal, a uma pena total de 45 (quarenta e cinco) anos de reclusão, a ser cumprida no regime inicialmente fechado (sentença de fls. 2123/2129)…
Irresignados, recorreram, pela ordem, o representante do Ministério Público e o réu (fls. 2137 e 2139).
O Promotor de Justiça, em suas razões de fls. 2152/2165, busca a majoração da pena-base, sob o argumento de que as circunstâncias judiciais do art. 59 do Código Penal são amplamente desfavoráveis ao acusado. Insurge-se, ainda, contra o reconhecimento da continuidade delitiva, devendo-se somar as sanções, por serem distintas as motivações para a prática da Chacina de Malacacheta…
Apresentadas as contrarrazões (fls. 2222/2224 e 2227/2238), a douta Procuradoria de Justiça, em parecer da lavra do Dr. Francisco Márcio Martins Moreira Chaves, opinou pelo conhecimento e desprovimento de ambos, rejeitando-se a preliminar de nulidade (fls. 2239/2242).
O feito foi a mim redistribuído em razão da aposentadoria do primitivo Relator, Des. Edelberto Santiago.
É, em síntese, o relatório…
A materialidade dos delitos encontra-se consubstanciada nos Exames de Necropsia de fls. 42/48.
A autoria, embora insistentemente negada pelo acusado na fase judicial e em Plenário, também ressai cristalina dos autos. Os fatos contaram com testemunhas oculares, as quais chegaram a ter contato com os assassinos pouco antes da chacina e conseguiram fugir do local.
Maria Luiza de Andrade, que reconheceu o ora apelante através de fotografias (fls. 208/209) na Delegacia, confirmou em juízo o reconhecimento realizado (fls. 475). José Augusto Sexto Neto também o apontou como um dos responsáveis pela chacina (fls. 587/590), assim como Humberto Augusto Cordeiro e Gilmar Barbosa da Silva (fls. 134 e 135/136)…
In casu, além do reconhecimento fotográfico, o envolvimento do apelante no crime como um dos participantes da chacina foi noticiado através dos depoimentos das testemunhas Gilberto Marçal da Rocha e José Elias Abrantes de Sales (fls. 389 e 1322). Este último declarou:”… que confirma que Ofenir Pinheiro Machado, Fábio Elias dos Santos, Amilton Leite Costa, Gilberto Marçal da Rocha e Joel de Tal e Adelsio de tal foram as pessoas que entraram na casa das vítimas a mando dos Leites para praticar os delitos; que tomou conhecimento que eles participaram da chacina porque Toninho falou com eles;…”.
Sobre a motivação dos delitos, asseverou José “Guaxe” que:”… a chacina da família da vítima aconteceu porque a referida família tinha mandado matar, digo, porque os Cordeiros mataram o pistoleiro Albino, ligado à família Leite …”.
Claro está, portanto, o envolvimento do apelante nos crimes sub judice, ressaindo dos autos que ele foi um dos pistoleiros contratados para exterminar a Família Cordeiro, sendo que, no dia dos fatos, dirigiu-se até a casa da vítima José Augusto Cordeiro, vestido com roupas e distintivos da Polícia Civil mineira, a pretexto de investigar a morte do pistoleiro Albino Alves Pereira, rumando para a fazenda de José Augusto de Andrade, local em que, após ser reunido o maior número possível de integrantes da família Cordeiro de Andrade, o acusado, juntamente com terceiras pessoas. iniciaram a execução das vítimas, culminando com a morte de sete integrantes da família…
Assim, plenamente admitida a continuidade delitiva em crimes que atingem bens personalíssimos de vítimas diversas. Por todo o exposto, conheço dos recursos e, rejeitando a preliminar de nulidade, nego-lhes provimento.
SÚMULA : RECURSOS NÃO PROVIDOS.
 
Bibliografia e pesquisas
  •  Processo nº 39933/7- TJMG
  • Processo nº 30306-5 TJMG
  •  Processo nº02497022327-7-II tribunal do Júri da Capital
  • Processo nº 0758/90- Comarca de Malacacheta
  •  Processo nº 464/70- Comarca de Malacacheta
  • Processo : 02401113736-1
  • IPM nº 013/90-CG
  • Laudos do IML nº 330/92-331/92-332/92
  • Laudos do IC nº 1553/92 e2616/92
  • Processo 0758/90- Comarca de Malacacheta
  • Processo 1813/94 Comarca de Malacacheta
  • Processo 276/94- Jaru- Rondônia
  • Processo 915/90- Pancas- Espírito Santo
  • Inquéritos policiais 221/94/DCCV, 223/93/DCCV
  • Só os Fortes Sobrevivem. Livro de Paulo Maloca
  • Matérias jornalísticas dos jornais Estado de Minas e Diário da Tarde
  • Jornal Hoje em Dia
  • Jornal O Tempo
  • Paraná Online
  • Rádio Teófilo Otoni
  • http://www.conjur.com.br
 
2011 A Saga dos Irmãos Leite.. © 2012 – Cyberpolicia: História da Polícia Operacional Investigativa
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2 respostas a A SAGA DOS IRMÃOS LEITE – CRIMES VARIOS

  1. lauro diz:

    nota 10 para pc, e nota abaixo de zero pra justica que ja pos em liberdade os mandantes dos crimes… brasillll lixooooooooooooo

  2. Geraldo diz:

    Sei que que eles estão errados, mas aqui na nossa cidade apareceu tanto “soro” depois da prisão da família Leite. Na nossa cidade sobrou um bando de cagão, língua grande…E se gritar na rua família leite tá solta, corre tudo pra debaixo da cama..

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